domingo, 17 de janeiro de 2016

A Letra Escarlate - Nathaniel Hawthorne


Comentário:
Publicado em 1850, este livro é talvez o primeiro grande romance da literatura norte-americana; na verdade poucas obras de ficção poderão ter servido de inspiração a Hawthorne. Por outras palavras, estamos perante um autêntico pioneiro.   
Como pano de fundo, a América do Norte no século XVII em plena colonização pelos ingleses, assistindo-se à fixação das colónias de populações puritanas, verdadeiramente fanatizadas. Na realidade, a maioria destes colonos eram ingleses de baixa condição, perseguidos pela justiça ou então refugiados por motivos religiosos. Foi por esse motivo que muitas seitas protestantes puritanas acabaram por se instalar no território que hoje conhecemos como EUA e que explicam, em parte, a mentalidade conservadora patente na maioria da população deste país.
A ação decorre na cidade de Salem, precisamente onde se deu o processo de acusação de bruxaria que levou à condenação de dezenas de mulheres por bruxaria. Esse é o facto histórico; o enredo ficcional baseia-se na história de uma mulher que um dia cometeu um pecado; tornou-se adúltera num momento de fraqueza. Condenada, mal vista e mal-amada, foi obrigada pelos juízes da cidade a usar uma letra bordada, um A escarlate, inicial de adúltera. Mas pior que a condenação é a forma como Esther é totalmente ostracizada pela população; os habitantes da cidade são mesmo levados a não a olhar de frente quando se cruzam com ela e muito menos dirigir-lhe a palavra. E assim Esther deveria passar o resto da vida.
A caraterização das personagens é um dos pontos mais fortes e geniais deste livro; cada uma das personagens principais é uma figura fortíssima e representativa de uma figura social típica. Assim, o pai da criança é uma figura cobarde, apática perante o sofrimento de Esther mas ao longo do livro vai evoluindo para uma tomada de consciência e tentativa de redenção que não são mais que atitudes destinadas a combater o remorso que o atormentava. Curiosa a forma como o autor só nomeia o pai da criança quando o leitor já foi levado a descobrir a sua identidade.
A filha, resultado da aventura de Esther, é Pearl (Pérola), uma jóia no meio do preconceito. Ela não é a criança perfeita; não é propriamente o bom selvagem de Rousseau; é antes o ser livre que lhe permite ser pérfida por vezes e amorosa noutras. Ela simboliza precisamente o ser humano livre das peias da religião fanatizada.
A Esther, tal como acontece com Pearl, o autor atribuiu um nome bem significativo, numa referencia clara a Ester, figura bíblica, rainha da Pérsia casada com Xerxes que arriscou a vida para interceder junto do imperador para salvar o povo judeu. Aqui Esther parece redimir toda a população como se fosse, com o seu castigo, capaz de libertar a cidade de uma espécie de pecado original, num contexto em que o pecado está por todo o lado, tal é o fanatismo com que se vive a religião; ou seja, ao ser punida, ela constitui uma espécie de catarse, de libertação daquelas mentes atrofiadas pelo fanatismo.
Um dos aspetos mais curiosos e mais artísticos do livro é a forma como o autor cuidou do domínio espacial: a cidade é associada ao conservadorismo, à desumanização provocada pelo fanatismo e à escravidão a que estão sujeitos os cidadãos, especialmente as mulheres. A floresta, pelo contrário, é o espaço de liberdade. É lá que as bruxas moram e elas representam precisamente o espírito livre. A natureza é assim apresentada como contraponto a uma civilização peada pela religião, num espaço de felicidade, onde Esther encontra o raio de sol que lhe fugia, numa figura de estilo que configura uma das passagens mais brilhantes da obra.
Enfim, trata-se de um livro que não escapa a uma certa ingenuidade formal mas que se compreende perfeitamente pelo seu caráter pioneiro; antes de Hawthorne poucos foram os grandes escritores de ficção. Talvez Poe e Goethe tenham sido os seus únicos percursores, embora em dimensões completamente diferentes. Um livro que é um marco histórico, obrigatório para todos que pretendem conhecer um pouco da história da grande literatura mundial. Mas é também um livro que se lê com facilidade e com imenso prazer.

Sinopse: (in www.fnac.pt):
O ambiente, asfixiante de puritanismo, duma colónia do Novo Mundo e, nele, o drama de um amor taxado de pecaminoso pelo convencionalismo da sociedade. O drama do amor entre um homem e uma mulher – uma mulher corajosa e um homem frouxo: enquanto ela enfrenta o opróbrio a que a votam, ele, «piedoso» ministro da religião, acoberta-se na respeitabilidade de uma fachada irrepreensível, a esconder o drama profundo duma consciência torturada pelo remorso. Um livro forte e pungente, um dos mais poderosos romances da literatura americana do séc. XIX e ao qual Nathaniel Hawthorne deve a sua consagração como escritor com assento entre os grandes nomes da literatura universal.
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