terça-feira, 23 de maio de 2017

Hamsters de Biblioteca - Fernando Évora e Gonçalo Condeixa

Comentário:
Atenção – Isto que se segue não é crítica literária; é um texto suficientemente reles para pôr os cabelos em pé a qualquer crítico literário que se preze. Portanto, se porventura o leitor é crítico literário, preserve a sua sanidade mental e saia daqui. Vaze… Xô…

Logo de início, uma nota do editor (sobre a forma como os autores se conheceram) deixa um sorriso nos lábios de quem lê e esse sorriso manter-se-á ao logo de quase toda a leitura. Daqui para a frente, uma série de episódios avulsos, sobre gente avulsa, da cidade de Avulsa vão deleitar-nos até ao ponto de chegarmos à mensagem propriamente dita. Passemos a observar alguns desses traços que tanto nos divertem:
Na apresentação da bibliotecária velha, é de louvar a sinceridade e coragem do autor ao classificar de “nojenta” a verruga da senhora, porque a verruga tradicional, ou é de bruxa, a verruga dita normal, ou é do tipo Catarina Furtado, daquelas que a gente até acha bem… esta não é uma nem outra. É nojenta.
Os autores deliciam-nos depois com a descrição de outras maravilhas pitorescas de Avulsa, para além da dita verruga. Não há leitor, por mais frugal que seja, que não morda os próprios dentes ao imaginar as delicias que serão “Epifanias de ovos moles”, “apocalipses de chocolate e natas” e outras iguarias do convento de freiras de Avulsa. E como em todas as cidades, vilas ou aldeias, também em Avulsa existe um Vladimir – um obreiro de obras feitas, um génio da bricolage, que é como quem diz, dos trabalhos caseiros que deixam satisfeita qualquer dona de casa avulsana.
Neste livro, o leitor tem o inestimável privilégio de aprender o que é uma cunicultora. É, no caso, Madame Leporídia. Se continuam sem saber o que é uma cunicultora também não vou ser eu a revelar…
Inseparável de Avulsa é o seu rio, onde nadam gambozinos mais “parlatoris” do que qualquer sogra velha. Do lado direito do rio nascera Rive Gauche, lendário herói da revolução. Um dia partiu calado e voltou revolucionário, para ficar na história e deixar belas memórias nos seus conterrâneos. Só que um dia uma trapezista arrebatou-lhe o coração. Agora vegeta, velho e pacifista. Assim morrem as revoluções.
Porque será que, de todas as personagens desta magna obra, só uma tem nome português? E quem havia de ser? O Julinho Marreco, alcoólico sem abrigo e utente do hospital psiquiátrico. Este facto muitas especulações poderia gerar, quiçá uma tese – “Julinho Marreco, totó sem abrigo alcoólico – o elemento tuga na obra de Fernando Évora”. Se o elemento tuga marca assim a sua presença, também é de destacar o elemento bíblico, personificado em Jonas, o manco, que não viveu na barriga de uma baleia mas no topo de uma coluna, como Estilita. Aliás, a alcunha terá a ver com isto como poderá o leitor constatar… Mas… quem é o Estilita? É ler o livro…
Até que um dia a velha bibliotecária foi derrotada por um gato. Depois, foi em festa que veio a nova bibliotecária, jovem e arejada, esta sim, uma boa bibliotecária, capaz de arrastar o mais ignorante para a biblioteca. Tempos modernos se avizinhavam. E vieram ciganos e tendeiros. E o Rive Gauche voltou também. A revolução não saiu à rua mas saíram os sonhos. E o livro entra na zona séria. Sério mas de uma beleza extraordinária, num singelo simbolismo. A beleza da bibliotecária talvez tenha feito soltar os sonhos. Um dia, Lars perdeu um sonho… Lars, o marinheiro pescador de gambozinos é o único personagem falado na primeira pessoa… perdeu um sonho e ficou para sempre enclausurado num lar, ligado a uma máquina.
Entretanto a biblioteca tornara-se um sítio alegre e divertido, o verdadeiro centro de Avulsa, já sem necessidade dos ratos de biblioteca que caçavam livros proibidos no tempo da velha bibliotecária.
E a modernidade invade Avulsa, graças aos investimentos de Tony Garrett. Até cria um bairro social moderno, substituindo o velho bairro da Capa Torta, que tornava feia a cidade. Agora é ver o casario de arte minimalista, os parques infantis e até se projeta um aeroporto. Tudo graças ao investidor Garrett, ao arquiteto Pireu e principalmente à nova bibliotecária, a grande líder, a grande modernizadora.
Até que um dia a desgraça bateu à porta de Avulsa – o banco foi assaltado e todos os avulsanos foram chamados a fazer sacrifícios para recuperar a economia. Mas a modernidade continuaria a brilhar, graças a Garrett e à bibliotecária, sempre pronta para o serviço, mais os seus hamsters amestrados.
Estes são alguns dos traços maiores de um livro que, como se vê, é muito mais que um conjunto de histórias sobre Avulsa; aqui estamos todos nós. Aqui está um barco que não é do marinheiro Lars mas se chama Portugal. Estamos nós em tipos, em cromos divertidos mas muito sérios, bem significativos do mundo em que vivemos.

Nota Final, não menos importante – a fazer lembrar sombras chinesas, as personagens desenhadas por Gonçalo Condeixa não são aleijadinhas – são belos bonecos estilizados. Dizem que é arte moderna. Mas têm muita pinta, acreditem.

Sinopse:
Uma metáfora à História de Portugal do século XX. 
Um livro que convida o leitor a desempenhar o papel de um detetive que descobre o verdadeiro sentido dos textos e desenhos. 
Pequenas histórias sem moral —ou com uma moral muito discutível —que não deixam ninguém indiferente e que, afinal, formam uma única história.


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