domingo, 20 de junho de 2010

A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafón

É impressionante a força que D. Quixote continua a ter na literatura espanhola. Fermin Torres, magro e narigudo como o fidalgo de La Mancha, personifica a alma generosa do herói de Cervantes. Destemido mas algo louco, utópico mas saudavelmente positivo, persegue a verdade e a justiça, lutando contra os moinhos de vento da ditadura franquista, inimigos reais mas por vezes escondidos sob a máscara da mais terrível hipocrisia.
Daniel Sempere persegue um livro. Um livro esquecido, abandonado, de um escritor menor, perdido nos mistérios do tempo, da guerra civil e do ódio. E por trás do livro está um homem: Julian Carax, seu misterioso autor. Procurando Carax, Daniel procura-se. Envolvendo-se numa misteriosa teia de percursos sinuosos, Fermin e Daniel enfrentam uma cidade (Barcelona) feita de medo, sangue e ódio, onde as feridas do corpo e da alma são difíceis de curar. Viviam-se os tempos terríveis da Guerra Civil espanhola (1936-1939) e posterior ditadura criminosa de Franco.
Carax, como Daniel e como qualquer de nós, não é só carne e osso – é alma, fantasma, sombra, um mundo imenso de mistério que Daniel vai desvendando.
Fazendo lembrar Perez-Reverte, Zafón presenteia-nos cm uma escrita empolgante, cheia de mistério, que agarra o leitor até à última página, até um final surpreendente, maravilhoso pela simplicidade.
Toda a vida de Daniel é condicionada pela procura de Carax, pelo desvendar do mistério, de tal maneira que a sua vida se funde maravilhosamente com o enredo do livro. Vidas que se misturam, enredos que se intersectam, criando um mundo complexo de realidade e ficção, com um pano de fundo profundamente dramático: o drama da Guerra e da ditadura são descritos muitas vezes em forma de autêntico “dramalhão” que, em certas passagens, chega a impressionar pelo exagero do sangue que escorre pelas páginas, bem à maneira da alma espanhola.
Pelo meio, uma espécie de sabedoria popular povoada de humor: “Falar é de ignorantes; calar é de cobardes; ouvir é de sábios” – disse Braulio Recolons, gerente de uma casa de toucinhos.
O livro é o tema central do livro. Um livro que decide destinos. Como tantos de nós bem sabem. Um livro une vidas, separa o que Deus uniu, mata e faz viver. Carax escreveu que “há prisões piores que as palavras”. A mim, modesto leitor, depois de ler este livro, apetece-me dizer que não há melhor prisão que a dos livros.

13 comentários:

Homem do Leme disse...

É realmente um livro fascinante. Quando o terminei, apetecia-me voltar a ler de novo, só para voltar a sentir o prazer que me proporcionou a sua leitura. Também já li "O Jogo do Anjo", - muito bom - mas "A Sombra do Vento" é especial

Lia disse...

E para reforçar essa ideia tens que ler 'O Jogo do Anjo'. São ambos muito bons e únicos.

Manuel Cardoso disse...

Já anotei :)
Obrigado.
Gosto da literatura espanhola.
Se gostaram destes gostarão certamente de Perez-Reverte. Penso que é ainda mais empolgante ;)
Aconselho-vos "Limpeza de Sangye" e, principalmente, o "Clube Dumas" (também sobre livros).

Jojo disse...

Está na minha lista!
Com tantos comentários e críticas é díficil não criar alatas expectativas!!!

Tempo é que não é muito!

Bjinhos*

Diogo Didier disse...

Fiquei tentado a ler esse livro. Confesso que não tenho muito conhecimento sobre literatura espanhola, mas encontrarei um tempo para ler...parabéns pelo bom gosto!

Nuno Chaves disse...

Ainda bem que gostaste manuel... aliás tinha a certeza de que irias gostar, está terrivelvemente bem contado este a sombra do vento, sou um pouco como tu, só leio estes livros muito depois de toda a gente e como tal, tenho vindo a ouvir falar de o jogo do anjo que penso comprar logo que me seja possivél, sobre Perez-Reverte não conheco muito, mas o bom deste mundo que é a blogosfera é precisamente esse de podermos sugerir e partilhar as nossas experiências com os outros. gostei bastante deste artigo sobre a Sombra do Vento, que me conseguio fazer parar um pouco e lê-lo com muita atenção. terminei os Pilares da Terra, nestes dias, é uma história longa mas magistral, deixa saudades. um abraço Manuel.

N. Martins disse...

Na realidade estava à espera de muito mais deste livro. O princípio fez-me pensar que iria ser um livro fabuloso, mas depois acho que se perdeu qualquer coisa pelo caminho. No entanto, gostei o suficiente para ter ficado curiosa para outros livros do autor.

Manuel Cardoso disse...

Jojo e Diogo
mesmo que não seja uma obra-prima, é um livro que não decepciona porque prende o leitor até ao final. É um livro bem "à espanhola": cheio de intriga, emoção, suspense :)

Olá Nuno
foste tu que (em boa hora) me convenceste. E agradeço-te porque gostei muito do livro.
Já agora, digo-te sinceramente: se gostaste deste vais adorar Perez-Reverte. Não percas tempo, procura O Mestre de Esgrima ou Limpeza de Sangue e vais lê-los de um fôlego. Depois aconselho-te O Clube Dumas (um pouco mais complexo mas o meu favorito).
Um abraço, caro Nuno

N. Martins, não quero ser adivinho mas talvez o que não te tenha agradado neste livro tenha sido o tom excessivamente dramático, não? Em certas ocasiões dei-me conta de que tudo corria mal, excessivamente mal para uma história que se tenta ver como plausível... muito sangue, muita desgraça, violência. Enfim, estes espanhóis são assim. MAs também a verdade é esta: a guerra civíl espanhola foi mesmo cruel. Terrível. E a ditadura franquista não ficou nada atrás do nosso funesto Salazar. O Inspector Fumero não é só ficção, infelizmente.
Abraços a todos

N. Martins disse...

O tom demasiado dramático terá sido um dos problemas, mas também os clichés e o final. Para além disso não gostei do Daniel Sempere, não o achei credível e por isso a certa altura deixei de me importar com ele. Acho que estava à espera de mais, até porque o início deixou-me mesmo empolgada... No entanto gostei da forma como ele escreve, da maioria das personagens e, de uma forma geral, da própria história. Não acho que o livro seja mau, só não o acho assssiiimmmm tão bom! :p

Manuel Cardoso disse...

É isso que não me canso de dizer: a arte é por natureza democrática - todos podemos (e devemos) exercer o nosso espírito crítico, gostando ou não gostando e dizendo-o abertamente.
:)

Carla disse...

Manuel queria aproveitar para divulgar o meu bloog que se chama atmosfera dos livros.

Lá vou sortear todas as semanas um ou dois livros da minha biblioteca pessoal, livros esses que tenho repetidos mas que ou não têm nada escrito, refiro-me ao meu nome claro, ou só têm é somente o meu nome, local e data. Julgo de grátis não pode ser melhor...

PARTICIPEM VALE APENA...

Espero que não te importes de divulgar aqui neste cantinho a atmosfera dos livros.

Desde já fico muito grata pela tua atenção e dos demais.

;)BOAS LEITURAS;)

Mária Santos Neves disse...

Olá, passei para visitar e como sempre, ótimas informações. Teu blog é uma referência de leitura para mim, pois além de escrever sobre os clássicos, também introduz leituras que não conhecia. Coloquei teu blog linkado no meu, também escrevo sobre os livros que leio. Abraços!

Mária Santos Neves disse...

Ah, sim, o endereço do meu blog:
http://todolivro.blogspot.com