sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sputnik, Meu Amor - Haruki Murakami

Sumine e o narrador (a quem nunca é dado nome) estão unidos pelos livros: “para nós, devorar livros era tão normal como respirar”. Numa história de solidão, os livros são o companheiro permanente para quem as encruzilhadas da vida são incontornáveis.
Sumine, a jovem escritora, Miu, a misteriosa empresária e o narrador, um professor silenciosamente apaixonado, vivem caminhos paralelos que nunca se encontram. Tocam-se por momentos fugazes e ilusórios. O resto é a vida: a angústia de uma existência com traços bem definidos mas movida por uma força invisível que os impele para longe das metas do coração. O amor que os une é também o que os separa.
Sputnik é o nome que Sumine dá a Miu, por quem se apaixonara. Sputnik significa “companheiro de viagem”. Mas é um nome absurdo. Sputnik é um satélite de metal que caminha solitário em torno da Terra. Assim é Miu em torno de Sumine – presente mas ausente. Perto, mas longe.
O Japão é talvez o país onde de forma mais evidente se digladiam o progresso tecnológico do mundo capitalista e uma tradição ancestral de humanismo e espiritualidade. Nessa disputa, o capitalismo venceu e o Japão é um país angustiado pela perda desse reduto espiritual. Os livros de Murakami são o espelho dessa angústia. A solidão invadiu o país, inavadiu as almas porque os corpos, esses, continuam a caminha juntos, mergulhados na luta pela sobrevivência.
Escritor de um talento raro, Murakami é o porta-voz da solidão. Os seus personagens pensam e sonham. Porque pensar é a estratégia humana para conciliar o que se sabe com o que não se sabe; para evitar a “colisão”. Sem pensar, só há uma forma de a evitar – sonhando, saindo da realidade.
O trauma de Miu (encarcerada numa roda gigante, vendo-se a si própria fazendo amor com um homem detestável) exprime de forma sublime a dualidade que há no ser humano: ninguém é um ser único nem uno; somos múltiplos; não há um “eu”. Ou, se há, está dividido entre “o lado de cá”, o da realidade concreta e o “lado de lá”, o do sonho, de um mundo criado por uma espécie de eu inconsciente que paira sempre sobre a nossa vida material.
Cada um de nós não é mais que um satélite solitário, gorando perpetuamente em torno da Terra. Cada um vivendo o seu “lado de cá” e a maioria de nós permanece sem saber como chegar ao “lado de lá”. Sentindo-o, por vezes sofrendo com ele, sonhando-o sem conseguir mais do que contemplá-lo, como um satélite solitário condenado a observar as estrelas.
Às vezes, no entanto, o sonho é a única coisa que vale a pena…
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