sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A Máquina de Fazer Espanhóis - Valter Hugo Mãe

António Silva, 84 anos, espera no hospital que Laura, companheira de toda a vida, recupere. Sente a velhice como morte lenta… a de Laura e a sua… à medida que avançamos na idade é como se fossemos morrendo para certas coisas… para o trabalho, para os filhos… talvez para tudo excepto para o amor. Mas quando o amor enfrenta a morte, a solidão é um tormento insuportável.
António Silva, no lar, aguarda agora a sua morte, adiada pelo absurdo supremo: a solidão absoluta entre outros seres solitários, outras mortes que se adiam. Uma solidão onde o futuro é um paradoxo, uma miragem ou menos que isso porque não existe.
Por entre a melancolia mórbida daquele depósito de velhos com o irónico nome de lar da feliz idade, sobressai a espaços um humor refinado nas conversas, baseado naquele saber de experiência feito, mas também naquela capacidade de rir e brincar que só as crianças e os idosos têm – traquinices pueris sobra a qual se vai construindo uma felicidade que só existe à superfície mas é real.
E, lentamente, António Silva vai descobrindo que, afinal, a amizade existe. No meio daquele resto de vida, onde os idosos enganam um resto de solidão, foi também onde António encontrou um resto de amizade; uma espécie de sol de fim de tarde…
Aquelas conversas quase felizes são momentos únicos naquelas vidas à espera do ocaso, momentos únicos em que se esquecem as memórias que enegrecem o coração, mais do que alegram.
E nas horas más volta a solidão, impiedosa. E as lembranças da ditadura, da injustiça, da tradição católica salazarista beata, de um Salazar que alimentava a ignorância e o medo. Nunca deixamos de ser um povo dependente de um ser que imaginamos superior, protector, que nos deixe na comodidade da obediência servil. É assim também que encaramos Deus – um vigilante supremo que garanta à sociedade que todos somos vigiados e controlados.
Por entre as conversas diletantes dos idosos, Valter Hugo Mãe vai deixando, em jeito de saraivada, a crítica mordaz à sociedade em que vivemos: a futilidade daqueles que apenas lêem pasquins, revistas cor de rosa ou jornais desportivos; o culto das ilusões, que vai da glória fantasiada do Benfica à adoração apenas ostentadora de um Deus contra o qual se peca por sistema; o fascismo que nos está entranhado na alma, que se vê na forma ainda idolatramos políticos com pés de barro, ao mesmo tempo que esperamos por um qualquer D. Sebastião salvador e redentor; o sistema capitalista-pedante feito de xicos-espertos que continuam a sugar o sangue e o suor do povo.
Valter Hugo Mãe deixa bem claro o seu sentido crítico perante este Portugal que ainda conserva os males e vícios da velha ditadura, onde ainda há um Salazar em cada família. É por isso que Portugal (“esta coisa a tombar para o mar”) é uma máquina de fazer espanhóis – cada vez há mais portugueses a lamentar esta independência inútil, como o velho louco que se diz Português de Badajoz!
Perante isto, haverá ainda quem teime em pensar que acabaram em Portugal os escritores de causas?
Esta é a verdadeira escrita de intervenção!
Esta é a voz que é urgente ouvir nos livros portugueses!
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