sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Papisa Joana - Donna Woolfolk Cross

Lenda ou verdade histórica? Ninguém pode dar uma resposta definitiva mas há indícios claros de que, realmente, uma mulher tenha chegado ao trono de S. Pedro, no século IX. Donna Cross explora primorosamente esses indícios para construir um magnífico romance histórico. Conta-se a aventura de Joana, uma menina nascida e criada na actual Alemanha, numa região martirizada pelas invasões estrangeiras, nomeadamente os normandos (vikings) os saxões e os francos. Na altura o império franco, liderado pelo grande Carlos Magno era a maior potência da época e tentava dominar a Europa em nome da fé cristão.
O pai de Joana, padre casado como era vulgar na época (o celibato só se tornou obrigatório no séc. XVI) era um homem terrivelmente severo. Joana sofreu as consequências desse fanatismo e toda a sua vida será marcada por uma luta incessante pela justiça e pelo verdadeiro espírito cristão.
Na verdade, a religiosidade medieval era envolvida num verdadeiro obscurantismo e pejada de preconceitos por vezes cruéis, como a recusa de quaisquer direitos à mulher, transformando a sua vida num verdadeiro martírio como serviçal dos homens, por se considerar desprovida de inteligência.
O modelo de vida propagado pela Igreja Católica era bem claro nesta máxima do teólogo Alcuíno: “a vida é alegria dos bem-aventurados, o desgosto dos infelizes e uma busca da morte”. A miséria e a infelicidade do povo eram vistas, portanto, como algo de natural. Os ténues raios de luz que se enunciam sob a forma de conhecimentos “científicos” são reprimidos. A razão é considerada inimiga da fé porque leva os homens a questionar. E questionar é mau; é perigoso para a estabilidade do modelo social e político vigente, assente na desigualdade. Joana tinha pela frente um desafio enorme: questionar a tradição, questionar os dogmas, nomeadamente aquele que considerava as mulheres inferiores e impuras.
Joana pode até ser uma figura apenas lendária. Mas é um símbolo de milhões de mulheres e de homens que lutaram contra o obscurantismo. Esta luta é bem patente na frase que Joana formula no seu pensamento quando é impedida pelo terrível Odo, o professor de ter acesso aos livros: “Vá, põe grades na tua biblioteca. Não podes pôr grades no meu pensamento.”
Em conclusão: trata-se de um romance histórico de grande qualidade literária, talvez apenas superado pelo Físico de Noah Gordon e pelo insuperável O Nome da Rosa, de Umberto Eco.
Acima de tudo, é um hino ao conhecimento e um merecido tributo ao papel da mulher na história da humanidade, tantas vezes esquecido em nome de preconceitos que ainda hoje subsistem. Para nossa vergonha!
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