domingo, 12 de dezembro de 2010

O Deus das Pequenas Coisas - Arundhati Roy

Só nas Pequenas Coisas residem os laivos de luz a que poderemos, talvez, chamar felicidade. Velutha, o Deus das Pequenas Coisas, intocável e Ammu, tocável amaram-se entre as coisas pequenas, na margem de um rio, entre insectos e ervas, ódios e intolerância e foram felizes nesses laivos de luz. Isto aconteceu antes de as Grandes Coisas tecerem os destinos: as castas, imposição sagrada; Deus e a Ordem; Tradição e Devoção; desgraças, destinos trágicos que só as Grandes Coisas podem dar à vida.
A Índia, terra de tradições, religião, ditaduras e outras grandes coisas é o cenário de amores proibidos. Rahel e Estha, irmãos gémeos, felizes nas pequenas coisas que o amor de irmãos envolve, desenharão destinos trágicos nos vestidos brancos, europeus, puros, perfeitos, chiques, de Sophie Mol, a prima perfeita. E todos os destinos se desenharão em torno da menina perfeita a quem os peixes comerão os olhos.
O Deus das Pequenas Coisas é um livro estranho. Numa escrita profundamente simbólica, por vezes enigmática, onde se entrevêem traços nítidos de William Faulkner, o leitor é embalado numa escrita de enredo por vezes tortuoso, de onde sobressaem algumas ideias já desenvolvidas por Aravind Adiga: as desigualdades sociais como consequência das tradições hindus, agravadas pelas consequências do sistema capitalista. A civilização europeia continua, no entanto, a ser vista como um modelo, um ideal a seguir no comportamento social, fruto de uma colonização inglesa que deixou raízes profundas, que conseguiu enquadrar a Índia no esquema de superioridade colonialista. Ao longo do livro é constante o lamento de Roy perante os graves problemas da Índia moderna: as injustiças sociais, os abusos de poder, a corrupção, a exploração e abusos de crianças, a violência sobre as mulheres, a falta de higiene pública e privada, a desorganização geral ao nível social e político, etc. etc.
Por outro lado, o marxismo e o cristianismo, aparentes instrumentos de revolta, não conseguiram pôr em causa a realidade vigente porque também eles são elementos estranhos, impostos pela velha Europa.
O amor e a história romântica de Ammu e Velutha, bem como os laços profundos de amor entre os gémeos, surgem como uma espécie de fuga para o real; um esconderijo nas pequenas coisas. Os dois gémeos vivem um mundo muito próprio, entre os encantos que a inocência infantil proporciona e um mundo reservado de segredos, de vida nos limites do permitido pelos adultos, porque só a proibição dá encanto à busca da felicidade.
Ao longo do livro, as súbitas e constantes mudanças de cenário bem como de tempo narrativo tornam por vezes a leitura difícil, sem que o leitor tire grandes benefícios desse esforço que lhe é imposto. Os saltos cronológicos parecem claramente excessivos e muitas vezes desnecessários.
Por outro lado, esta técnica narrativa torna a acção demasiado lenta. Alguns episódios, como a espera por Sophia Mol arrastam-se por dezenas de páginas sem que se vislumbrem vantagens dessa lentidão. Assim, a leitura chega a tornar-se enfadonha.
É por isso que este é um livro estranho: saturante, fastidioso mas também recheado de uma rara beleza de linguagem e com um final belíssimo, de uma beleza que só a tristeza pode proporcionar.
(Texto também publicado no blogue DESTANTE)
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