sábado, 4 de agosto de 2012

Dublinesca - Enrique Vila-Matas


Sinopse
Samuel Riba considera-se o último editor literário e sente-se perdido desde que se retirou. Um dia tem um sonho premonitório que lhe indica claramente que o sentido da sua vida passa por Dublin. Convence então uns amigos para irem ao Bloomsday e percorrerem juntos o próprio coração do Ulisses de James Joyce.
Riba oculta aos seus companheiros duas questões que o obcecam: saber se existe o escritor genial que não soube descobrir quando era editor e celebrar um estranho funeral pela era da imprensa, já agonizante pela iminência de um mundo seduzido pela loucura da era digital. Dublin parece ter a chave para a resolução das suas inquietações.
Neblina e mistério. Fantasmas e um humor surpreendente. Enrique Vila- Matas regressa com um romance que parodia o apocalíptico ao mesmo tempo que reflecte sobre o fim de uma época da literatura. Um romance deslumbrante, aberto às mais diversas leituras, uma verdadeira prenda povoada de surpresas. 

Comentário:
Riba é um editor desiludido.
Gutenberg vencido pelo Google; a imagem da decadência e da morte lenta da grande literatura.
Em torno de Ulysses de James Joyce, expoente máximo da era Gutenberg, Riba decide ir a Dublin fazer o funeral da era da imprensa, convidando para isso três amigos: Javier é uma espécie de contraponto de Riba: não gosta do intelectualismo de Joyce. Ricardo tem uma espécie de dupla personalidade; tenta equilibrar os dois lados: a intelectualidade e a vida. Finalmente, o jovem Nietzky. Um nome que faz referencia a Nistzsche; um jovem que Riba admira; grande admirador de Auster, como Riba. Ele será o cérebro da expedição.
Como no filme de Cronemberg (Spider), Riba personifica “a incomunicabilidade de um solitário com um mundo inóspito”. Riba é um solitário que admira Paul Auster, nomeadamente no seu livro “Inventar a solidão”; é nessas viagens pelo mundo interior que Riba imagina e planeia a viagem a Dublin, como se fosse uma espécie de santuário onde executará o requiem à grande literatura.
Em grande parte, este é um livro negro. O autor revela um tremendo desencanto em relação ao rumo da literatura atual; logo no início do livro, Riba apresenta-se como o editor fracassado porque se recusou a editar livros góticos, com vampiros e sangue.
Todo o enredo da obra se baseia nesta crítica, por vezes demasiado enfática, envolvendo mesmo os leitores: numa perspetiva algo elitista, bem do agrado dos críticos literários mais cinzentos, o autor considera que já não há bons leitores: os leitores atuais preferem encontrar nos livros imagens daquilo que eles são, recusando ideias alternativas. Tudo o que lhes é minimamente estranho, é rejeitado. Trata-se, a meu ver de uma perspetiva demasiado sombria e pessimista que não beneficia em nada esta magnifica arte que é a literatura; não é derrotando os leitores que a literatura triunfa.
Trata-se de um livro que me despertou sentimentos contraditórios: por um lado um desencanto perante esta perspetiva híper criticista e elitista, representante típico desta conceção de cultura que rejeita tudo o que pode ser considerado divertido e simples; para Vila-Matas, como para muitos dos intelectuais mais destacados da nossa praça, a cultura tem de ser bem chata, bem cinzenta. E triste; muito triste.
Mas há o outro lado, o sentimento contraditório que despertou em mim o interesse, precisamente, por algumas ideias de Vila-Matas, explanadas num estilo original e com algum bom humor. O funeral em Dublin tem qualquer coisa de surreal, qualquer coisa de vagamente místico que nos deixa presos à leitura sem que nos apercebamos do real motivo desta atração pela leitura. Não há dúvida que Vila Matas escreve muito bem; não é dúvida que é criativo e original; no entanto, esta mensagem cinzenta, esta perspetiva sombria e esta envolvência algo elitista da cultura literária tornam o livro pouco agradável para quem, como eu, encara a literatura como um dos aspetos mais agradáveis, oníricos e divertidos da vida.
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