quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

1984 - George Orwell






Eis um livro que marcou indelevelmente a literatura do século XX. É um livro que se lê por vezes de forma dolorosa tal a frieza com que é imaginada uma ditadura impiedosa, que absorve por completo toda a liberdade individual.
O maior mérito de Orwell foi ter construído todo um sistema político de forma que o leitor o reconhece como possível: essa é a maior força do livro, a tenebrosa sensação de viabilidade de um tal sistema.
A manipulação da história sempre foi um poderoso meio de fabricar justificações para a ditadura; aqui, na imaginária (ou nem tanto) Oceânia todo o passado é reescrito, para que o presente seja justificado na “verdade oficial” sempre construída à medida dos interessas do regime. Tudo é transformado, adaptado, de forma a eliminar todo e qualquer vestígio de pensamento autónomo. O ideal seria mesmo o “patofalar” (como se diz na língua oficial da Oceânia – a novilíngua). Trata-se de falar sem sair do trivial; sem qualquer raciocínio ou opinião. Só assim se respeitaria a ortodoxia, porque “ortodoxia é ausência de pensamento”. Neste como noutros pormenores o leitor pensa no paralelismo com as “democracias” atuais…  o ideal é que os “proles” (85% da população) se limite a trabalhar e reproduzir-se. Mesmo assim sem qualquer prazer, porque o prazer retira as energias necessárias ao culto do regime.
Como acontece em qualquer outra ditadura, a propaganda e a repressão são os pilares do sistema. No entanto, o aspeto radical da obra reside nisto: propaganda e repressão atingem limites inacreditáveis: a propaganda deve refazer por completo toda a personalidade do súbdito: a Winston é retirado tudo o que o carateriza como ser humano: pensamentos mas também sentimentos. Tudo é reescrito na alma até que o súbdito ame profundamente o Grande Irmão. Para esse fim a repressão reforça o poder da propaganda: uma repressão capaz de destruir corpo mas também alma.
A Oceânia vive em guerra permanente e pouco importa contra quem; apenas importa que haja guerra porque ela fornece uma razão de ser ao sacrifício individual e à perpetuação do poder. Júlia, a resistente apaixonada por Winston, suspeita que os bombardeamentos da cidade sejam perpetrados pelo próprio governo, para intimidar o povo e manter o ódio ao inimigo. Aliás, toda a sociedade funciona com base no ódio; as próprias crianças são educadas no sentido de cultivarem a delação e a vigilância constante sobre os adultos.
Em suma, trata-se de uma leitura dolorosa, onde a ficção alimenta no leitor o choque do possível e mesmo de certos aspetos da realidade atual; uma perspetiva pessimista, quase escatológica da humanidade. Um livro que marcou a história da literatura, não tanto pela qualidade literária – que não é excecional – mas pelo significado político e  mesmo filosófico do enredo.
(Lido no âmbito do clube de leitura BERTRAND, de Braga)

10 comentários:

Teté disse...

Li o livro há muitos anos e é um dos meus preferidos de sempre! Um hipotético e monstruoso regime que, não existindo, não custa a acreditar que pudesse ser implantado... ;)

Tiago M. Franco disse...

Um livro a ler..um autor a conhecer.

Anónimo disse...

Um livro que me chocou e influenciou. Um grande livro. Ironia das ironias, foi um reality sho adaptar o nome do livro. Uma contradição, sem duvida.

Só Manuel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manuel Cardoso disse...

Teté, não existiu mas esteve perto... Estaline, que inspirou certamente este livro, foi um monstrozinho que destruiu belos ideiais e matou oito milhões em nome desses ideais...
caro Anónimo, o reality show divulgou um Big Brother que nada tem a ver com a monstruosidade aqui descrita. Mas se alguém leu este livro influencido por essa insanidade, já valeu a pena :)
Tiago, tens mesmo de ler...

teresa dias disse...

Recordo que li este livro em 1984, pela coincidência com o título. Recordo, também, o excelente prefácio de José Pacheco Pereira.
Recordo, ainda, a aberração dos três lemas do Partido: Guerra é paz; Liberdade é escravidão; Ignorância é força.
Trata-se de um excelente livro.
Quem ainda não leu deve ler; quem já leu deve reler. É o que eu vou fazer.
Já agora, aconselho a leitura de "Filhos de Estaline", de Owen Matthews, um relato baseado em factos verídicos de três gerações de amor, guerra e sobrevivência na Rússia cruel do século XX.
Boas Festas.

nuno chaves disse...

É um daqueles livros de que sempre ouvi falar, mas que nunca li. Pode ser que um destes dias decida ler.
Muito curioso, naquilo que parece se o original Big Brother.

Anónimo disse...

Pior, que a situação é a mesma, que estamos vivendo agora, com o progressivo controle dos meios de comnunicação e de vigilência internacionais por regimes como o norte-americano, como explicam jornslitas como mauro santayana, do JB, em matéria publicada esta semana:

http://www.maurosantayana.com/2013/01/no-universo-orwelliano-de-1984.html

Manuel Cardoso disse...

Muito bem visto...

Fragmentos Repartidos disse...

Este 1984 é um livro que tenho curiosidade em ler devido ao que se diz acerca do mesmo e também por ter sido mencionado em 1Q84 (e não só) de Murakami bem como noutros meios (inclusive já existe um videojogo que tem grande influência deste livro).

Espero que seja um livro que me incentive a continuar a sua leitura mantendo um certo ritmo e interesse...pois isso faz parte das coisas que mais aprecio num livro (a capacidade de me cativar).