domingo, 9 de dezembro de 2012

Soberba Escuridão - Andreia Ferreira






Antes de mais nada quero afirmar que este livro constituiu, para mim, uma bela surpresa. O facto de não ser adepto militante da literatura fantástica talvez tenha contribuído para acentuar a surpresa. A ideia geral com que fiquei após a leitura foi esta: a Andreia Ferreira tem futuro na literatura portuguesa. É óbvio que não estamos perante uma obra-prima. Algo falta ainda para que o “caso sério” seja um facto. Mas já lá vamos.
Em primeiro lugar, senti este “Soberba escuridão” como um agradável transporte para o irreal. Esta, creio eu, deve ser a primeira meta de um romance deste género literário. Foi plenamente conseguida: a escrita objetiva, límpida, desprovida de adornos fúteis (como tantas vezes vemos por aí) confere à narrativa esse agradável mérito de levar o leitor a aceitar com facilidade a saída do lógico, rumo a mundos apenas construídos pelo sonho. Ou pesadelo, obviamente.
A fronteira entre o irreal e o real vai-se tornando cada vez mais ténue ao longo da primeira metade do livro para, sensivelmente a partir da primeira centena de páginas o leitor conseguir aceitar o fantástico como fazendo parte de um novo cosmos que Andreia Ferreira pacientemente foi tornando lógico. É este crescendo que, no final, tornará quase inevitável a aceitação de anjos e demónios como personagens lógicas da narrativa.
A tal linha estreita entre a realidade e a ficção é, afinal, algo muito mais natural e diria mesmo trivial do que se imagina. Se refletirmos um pouco, todas as nossas construções mentais, sentimentos ou perceções do mundo são erigidas sobre esse limiar, influenciadas pelos dois lados. É difícil, na nossa vida, separar os dois mundos. Porque haveríamos então de os separar na literatura? A vida de Carla, afinal, não é muito diferente da de qualquer um de nós. Ela foi um pouco mais além do que o comum dos mortais; pisou terrenos desconhecidos para nós. Mas, o que serão esses mundos senão a loucura normal em que todos por vezes navegamos? A loucura, o medo ou o trivial medo da loucura são os terrenos marginais do fantástico que há na vida de todos nós.
Voltando à narrativa: há dois aspetos que, penso, valorizam muito esta obra. Um deles é a leitura perfeita da vida de Carla enquanto adolescente. O mundo da adolescência, nos seus dramas, sonhos e medos, estão perfeitamente retratados nestes personagens. Um outro aspeto que pode parecer lateral mas que encaro como fulcral no livro é a presença do gato. O Pequeno fez-me lembrar algumas das melhores páginas de Murakami: o gato misterioso, adensando mistérios mas também como elemento positivo naquele mundo de pesadelo.
Gostava de terminar como comecei: reafirmando que Andreia Ferreira pode vir a ser um caso sério na literatura portuguesa. Ainda não o é porque falta, na minha opinião, dar o salto para a análise mais aprofundada da alma humana; falta aqui algo de Dostoievski. Ou do nosso José Luís Peixoto. Não o podemos exigir, é óbvio, a uma jovem escritora. Mas será esse o seu desafio: entrar mais fundo no cosmos mental das personagens. Esquartejar sentimentos, conflitos interiores. Sair um pouco da narrativa. Isso levaria Andreia Ferreira a sair do domínio do fantástico. Mas é nisso que consistem as obras-primas: em ultrapassar limites. Estou certo que será esse o caminho desta jovem autora bracarense.
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