sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A República dos Corvos - José Cardoso Pires



Sinopse:
Um dos muitos títulos de um dos mais notáveis escritores da língua portuguesa, "A República dos Corvos" reúne sete contos e foi publicado em 1988. José Cardoso Pires, de quem se escreveu que todos os livros são fábulas, mesmo os romances ou os ensaios, retoma a faceta de contista com que se estreara na publicação ("Os Caminheiros e Outros Contos", 1949) e que por essa altura já tinha sido alvo de várias coletâneas.
Sete contos repletos de ironias para descobrir e divertir, na mesma escrita despojada de quem em meio século de letras sempre preferiu pecar por defeito do que por excesso e exigir criatividade ao leitor em vez de o manter passivo. Enquanto ensaísta, romancista, jornalista, dramaturgo e fabulador.
Comentário:
Em regra, não gosto de contos. Parece-me sempre pouco quando se trata de grandes escritores. Há exceções, é claro, como os consagrados James Joyce em Gente de Dublin ou os famosos contos de Tchekov. Não esquecendo o nosso Eça, claro. Este livro de contos de Cardoso Pires pode acrescentar-se a esta lista de exceções.
Trata-se de um conjunto de pequenas e médias narrativas que têm em comum a presença de animais e a sua relação com os humanos. O primeiro conto, que dá título à obra, é uma fábula absolutamente deliciosa, cheia de humor e em certos momentos hilariante. O corvo, um dos símbolos de Lisboa, é aqui um pássaro trocista intérprete de uma deliciosa crítica de costumes e com uma linguagem encantadora.
A forma como os contos estão estruturados leva-nos desta hilaridade dos primeiros contos a uma sátira cada vez mais séria e profunda. Este crescendo culmina com o maior conto do livro, uma sátira a Salazar (escrito em 1969, ano da “abdicação” do ditador) significativamente intitulado “Dinossauro Excelentíssimo”.
Nesse conto, percorre-se a vida do ditador, desde uma infância controlada pela beatice e pela analfabetismo, até uma morte que não se sabe bem quando ocorre, uma vez que o ditador sobrevive na voz e na ação dos seus seguidores, também eles esclerosados. Algures pelo meio do percurso o dinossauro metamorfoseara-se numa estátua sem braços, venerada à imagem e semelhança do ditador. Aqui como noutros pontos, José Cardoso Pires não esconde a influência de Kafka, na abordagem de um certo “absurdo normal”.
Também noutros contos é nítida a sátira à classe política, como por exemplo nos sábios cegos e iluminados, que são descritos por um narrador “lambe-botas” típico do regime totalitário sob o qual parte do livro foi escrito.
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