segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Quem me dera ser onda - Manuel Rui




Sinopse:
Num edifício onde é proibida a presença de animais, Diogo, o pai, um dia leva um leitão vivo para o seu apartamento. O plano é engordá-lo o suficiente para, no carnaval, a família se empanturrar de carne de porco.
Entre diversas tramas e planos para escondê-lo dos moradores e do administrador, Zeca e Ruca, filhos de Diogo acabam afeiçoando-se ao animal e farão de tudo para impedir o trágico destino que o espera.
Uma bela e tocante história de como uma amizade entre duas crianças e um porco pode mudar a vida de tanta gente.

Comentário:
Este livrinho é uma pequena maravilha. Uma história fabulosa, construída pelos mais belos sentimentos humanos. Mais uma vez, são as crianças a transportar essas lições que os adultos teimam em não querer aprender. As crianças, no seu plano de salvação do porco, usam a solidariedade como forma de resistência ao poder prepotente dos adultos.
Beto, filho do implacável Faustino, administrador do prédio, compreende como ninguém a beleza da amizade que se estabeleceu entre o porco “Carnaval da Vitória” e as crianças, filhas de Diogo, Ruca e Zeca.
A amizade pelo animal entrará assim num conflito pungente com a gula de Diogo, que sonha com u belo jantar de Carnaval e com o legalismo cego e pateta dos moradores do prédio, principalmente o seu administrador, Faustino.
Faustino é a metáfora do poder político: interesseiro e oportunista. Diogo personifica o cidadão de classe média, que tenta driblar a legalidade em nome de um pouco de desafogo económico.
Pelo meio, uma linguagem singela, típica da nova literatura africana e um sentido de humor refinado, muito eficaz que leva o leitor de um sorriso permanente até à gargalhada desbragada. Pequenos jogos de linguagem, como a expressão “Ramalho Eanes” atribuída ao garrafão de vinho dão a este humor um cariz popular e ao mesmo tempo ingénuo que nos faz rir de uma forma simples e muito eficaz.
Embora se trate de um livro muito pequeno, ele está cheio de mensagens simbólicas e metáforas, algumas delas de grande beleza, como o facto de o porco só ficar calado quando ouve rádio: tal como as pessoas que calam o que pensam e sentem, apenas porque ouvem determinados “senhores” que falam na rádio ou na televisão.
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