quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Jesus Cristo bebia cerveja - Afonso Cruz

Sinopse:
Uma pequena aldeia alentejana transforma-se em Jerusalém graças ao amor de uma rapariga pela sua avó, cujo maior desejo é visitar a Terra Santa. Um professor paralelo a si mesmo, uma inglesa que dorme dentro de uma baleia, uma rapariga que lê westerns e crê que a sua mãe foi substituída pela própria Virgem Maria, são algumas das personagens que compõem uma história comovente e irónica sobre a capacidade de transformação do ser humano e sobre as coisas fundamentais da vida: o amor, o sacrifício, e a cerveja.
Depois de ser distinguido com o prestigiado Prémio da União Europeia para Literatura, Afonso Cruz venceu com o seu romance "Jesus Cristo Bebia Cerveja" a categoria Livro Português do Ano na primeira edição dos Prémios Time Out Lisboa. 

Comentário:
A leitura deste livro, no âmbito do clube de leitura da Bertrand de Braga, deixou alguma perplexidade. Por um lado, é um livro de leitura muito agradável. Por outro, deixa um certo desencanto. Talvez o encanto esteja no estilo e o desencanto no encaminhamento que o autor deu ao enredo. Talvez se esperasse algo mais credível.
Um dos aspetos em que o livro é muito bem conseguido é na caraterização dos personagens:
Rosa, a força bruta da terra; a candura de uma criatura simples, ingénua, vítima de um destino nefasto. O Professor, um incompreendido; uma vítima do mundo materialista e pragmático em que vivemos; a personificação do fracasso do mundo das ideias. O Sargento Oliveira é o que resta do velho Portugal: brutamontes, ignorante, cultiva um poder que julga superior e que justifica a sua prepotência. Antónia é a mulher do povo, que nunca perde a capacidade de sonhar, embora vivendo mergulhada na ignorância; ir a Jerusalém foi um objetivo de vida. O sonho comanda a vida e a vida alimenta o sonho até que ele se concretize. Miss Whittemore, a inglesa que “colonizou” um monte alentejano, é a mecenas; a mulher estrangeira que traz a civilização a este Portugal rural.
Este livro vem complementar uma tríade de obras completamente diferentes umas das outras. Depois de um algo obscuro “A Boneca de Kokosha”, este livro é uma lufada de ar fresco, uma obra divertida sem perder a grandeza de um enredo muito bem elaborado. É um retrato profundo e muito sério do Alentejo, mas também de toda uma ruralidade, nas suas virtudes ingénuas mas também na ignorância e num certo obscurantismo.
O estilo de Afonso Cruz, fundado sobre frases curtas e diretas, permite uma leitura agradável de onde sobressaem ideias claras, plasmadas em frases de uma beleza literária indiscutível, onde o humor de uma espécie de filosofia do trivial se mistura com a arte de transformar a vida num conjunto de aforismos:
“Tal como é possível não pisar a merda, é possível dar a volta ao impossível”
“Se o trabalho desse dinheiro, os pobres eram ricos”
“A loucura, quando dá a um grande número de pessoas, chama-se sociedade contemporânea”
“Deus está na barriga dos esfomeados”
O final do livro, na minha opinião pessoal, perde um pouco pelo exagero da situação criada. No entanto é desfecho surpreendente, cheio de criatividade literária.
 
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