domingo, 8 de dezembro de 2013

Do Outro Lado do Rio, Há Uma Margem - Pedro de Sá


Sinopse:
Uma rapariga pedala na fúria do momento, sempre a pior, numa tarde ensolarada de Maio. Um casal revisita lugares de outrora. Uma mão desce sobre uma laje. A sombra de um choupo. Um rapaz caminha sobre a terra sob o peso de uma questão. Uma velha descasca peças de fruta antes de falar. Uma mulher olha um filho como se caminhasse sobre uma plataforma ferroviária. Uma bengala, de madeira, em silêncios de adeus. O mundo, lá fora, já uma noite imensa. Enquanto sorrisos sob uma luz.

Comentário:
Pedro de Sá tem vindo a construir um percurso curioso na nova literatura portuguesa; um percurso discreto, feito de passos suaves e seguros, desde o prometedor Olhei Para Trás e Sorri, de 2010, até este quase maduro romance.
Na verdade penso que estamos perante um dos mais prometedores escritores da nova vaga. Um escritor que caminha a passos largos para a maturidade. A minha maior dúvida é esta: será que o seu merecido reconhecimento público será possível nesta editora?
Este romance, que se lê quase de um fôlego tal a cadência da sua escrita, revela traços de originalidade notáveis mas também (e acima de tudo) de uma qualidade literária que deriva, em grande parte, de uma interioridade exposta em palavras e frases sentidas, transparentes no sentimento e na leitura da alma humana.
Em primeiro lugar, destaca-se ao longo da leitura uma curiosa abordagem bucólica dos cenários, que leva o leitor a viajar até aos mais puros escritores românticos da literatura portuguesa; tais cenários funcionam como pano de fundo àquilo que mais me impressionou neste romance: uma abordagem singular da alma humana. É que por vezes há olhares distanciados na vida que, afinal, nos escondem o óbvio que vem das almas:
Perdemo-nos tanto a olhar o longe que não ouvimos a súplica perto.” (Pág. 53)
 Pedro de Sá, neste livro fala-nos das súplicas que vêm das almas. A sua escrita caminha sobre sombras introspetivas, deixando um rasto de António Lobo Antunes. Talvez, como aconteceu com os seus personagens, o autor tenha enveredado por esse caminhar para o interior, para dentro de si ou para dentro de uma certa alma universal. Afinal de contas, o que lemos em Henrique, Andreia ou Eduarda são imagens, retratos interiores, divagações das profundezas da alma, diálogos de cada um deles com eles mesmos e os outros como espelhos ou contrapontos às vezes, como obstáculos ou desafios outras vezes.
Mas nestas almas, mesmo que mundos transformados em ilhas, há sempre pontes que se constroem; há vias de acesso a margens separadas, a espaços de paz atravessados por torrentes caudalosas que, no entanto, a luta a que chamamos vida permite vencer.
É também do equilíbrio tantas vezes precário dessas pontes que Pedro de Sá nos fala. E a angústia dessa instabilidade, a fronteira do medo que vai transmitindo a quem lê uma perspetiva de desequilíbrio, de precaridade, que avassala todas essas (e estas) almas: de quem lê, de quem escreve e de quem é inventado. Talvez pela ordem inversa…
E o tempo, esse monstro; esse rio caudaloso, intempestivo, que separa margens.

À sua volta, sentem o amanhã. Regina apenas o presente. Afinal, a dor ensina-nos o momento. E ela ficou, para sempre, enredada numa margem a olhar a corrente” (Pág. 120)… a espera da vida; a luta contra e a favor do tempo; a procura incessante de uma margem sonhada, feita de paz mas separada pelo tempo de uma outra margem, a do sofrimento. Ou talvez as duas sejam uma e a mesma margem…
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