sábado, 14 de dezembro de 2013

Arroz de Palma - Francisco Azevedo


Sinopse:
O Arroz de Palma fala de família. Considerada falida nos anos 60 e condenada ao desaparecimento, a família situa-se, agora, neste início do século XXI, como a mais sólida das instituições. Surpreendente? Nem tanto. Embora sacudida por radicais transformações de comportamento, ao longo das últimas quatro décadas, a família tem sabido superar suas deficiências, passar por testes dificílimos e, com base em diálogo mais franco, obter um maior entendimento entre seus membros: a aceitação do sexo antes do casamento e da homossexualidade, a união entre pessoas de religiões, raças e níveis sociais diferentes, a possível amizade entre casais que se separam e a natural convivência entre filhos de casamentos diferentes são apenas alguns exemplos de como essa instituição tem sabido evoluir e responder a novos desafios.
Embora ainda com resistências e intolerâncias aqui e ali, e apesar de aparentes sinais de fragilidade, a família apresenta-se hoje como a instituição mais credenciada para reger de forma responsável as mudanças que a sociedade vem exigindo. Em O Arroz de Palma todos esses temas e mudanças estão presentes. Antonio, o narrador da história, é naturalmente envolvido por elas. A história pretende mostrar que, apesar de todos os seus erros e tropeços cotidianos, a família busca se aprimorar. Ao se empenhar pelo acerto, essa milenar instituição parece querer provar que nós, seres humanos, pelo próprio instinto de sobrevivência, estamos fadados ao entendimento.

Comentário:
O clube de leitores Bertrand de Braga ofereceu-me esta possibilidade de ler pela primeira vez este escritor brasileiro. Não posso dizer que seja uma obra-prima nem que a escrita de Francisco Azevedo seja genial. Mas é muito agradável. Talvez pelo facto de ter feito carreira como guionista, Azevedo presenteia-nos com uma escrita fluida, muito musical, sem ornamentos desnecessários mas também sem cair na aridez da escrita do tipo SMS.
Grande parte da musicalidade e de um certo exotismo nesta forma de escrita advém do respeito quase total pela linguagem falada e pelo sotaque brasileiro; lemos como ouvimos.
A estrutura narrativa é interessante, se bem que demasiado linear: trata-se dos cem anos de história de uma família brasileira resultante de um casal pobre português, de Viana do Castelo.
O contexto da aventura iniciada por esse casal apresenta-nos um retrato muito fiel e historicamente correto do Portugal dos últimos tempos da monarquia (1908) em que a fome se generalizara, em consequência de uma política monárquica decadente, corrupta e antiquada. Passava-se fome em Portugal e o Brasil era uma espécie de terra prometida.
No Brasil, como acontecia com a generalidade dos emigrantes, também o casal José Custódio e Maria Romana, bem como a Tia Palma, destacaram-se pela humildade e capacidade de trabalho que os levou a um estatuto socioeconómico bem distante da miséria portuguesa.
Mas é da geração seguinte que aqui mais se fala; o narrador é um dos filhos do casal, Antonio, o mais velho dos quatro filhos de José e Maria (curiosa escolha de nomes) um apaixonado por culinária que se torna um empresário bem-sucedido.
Mas o fio condutor do livro é o misterioso arroz da Tia Palma, o mesmo que fora atirado sobre o casal aquando do casamento, em Viana do Castelo, 1908. O caráter mágico do arroz, experimentado ao longo de um século por toda a família confere à obra um tom tipicamente sul-americano de realismo mágico. No entanto, o enredo, a partir de determinada altura perde ritmo e a estória torna-se algo previsível. Os milagres do arroz de Palma quase se tornam triviais, tal a sua eficácia e os contextos pouco variáveis em que ocorriam.
Mesmo assim, estamos perante uma leitura agradável de um escritor que vale a pena conhecer.


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