terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Está a fazer-se cada vez mais tarde - Antonio Tabucchi




Sinopse
Com este romance epistolar, Tabucchi renova uma ilustre tradição narrativa, subvertendo muito embora os códigos e pervertendo o género. Com efeito, apercebemo-nos a pouco e pouco que alguma coisa "não bate certo" nestas missivas: a paisagem parece resvalar sob os nossos olhos, os destinatários parecem errados, os remetentes desapareceram e os tempos inverteram-se, como se o antes e o depois tivessem trocado de posição e as cartas se antecipassem ou se atrasassem relativamente à própria mensagem que transmitem. Como se a vida fosse afinal um filme perfeito em que só a montagem falhou.

Comentário:
Este é um livro pouco convencional. Quem, como eu, leu antes Afirma Pereira, estranha bastante a diferença entre as duas obras. Neste livro, Tabucchi envereda por um formato peculiar, a que o autor (ou o editor?) chama “romance em forma de cartas”, embora seja muito difícil considerar este livro um “romance”. Na verdade, esta multiplicidade de tempos, de personagens e até de narradores leva o leitor a um trabalho desmedido na procura de uma linha de rumo que permita compor este enorme puzzle, em que as peças parecem não encaixar nunca. Talvez esta diversidade de narradores seja influência direta de Fernando Pessoa, tratando-se de escritor que viveu largos anos em Portugal e admirador confesso do nosso grande poeta.
Na verdade, o único fio condutor que, depois de tanto esforço, podemos encontrar é a multiplicidade de destinos a que as paixões conduzem os homens, num palco de múltiplos cenários, a que chamamos vida.
Por entre tantas cartas, tantas estórias, perpassa uma certa nostalgia, mesmo uma certa angústia perante os destinos tantas vezes cinzentos desses amores. Assim, mais do que um romance, este livro não é mais queum conjunto de impressões e reflexões sobre a vida e o amor. No entanto, não deixa de ser muito interessante a forma como o autor aborda os mais variados assuntos nessas cartas, fazendo apelo a elementos relacionados com as artes e a literatura. Por outro lado, talvez sob a influência, que o próprio autor assume, de Nikos Katanzakis, são muito interessantes as descrições de paisagens rurais.
Trata-se, portanto, de uma obra bastante reflexiva, de leitura difícil, árdua mesmo, a não ser que nos limitemos a encarar as cartas de forma independente. No entanto, a designação de romance encaminha o leitor para essa procura do fio condutor, de um enredo, o que prejudica o caráter lúdico que, em meu entender, deve estar sempre presente numa obra literária de ficção.
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