segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Alves & Cia - Eça de Queirós




Sinopse:
Tudo estava bem na vida de Godofredo Conceição Alves até ao dia em que chega a casa e tem a terrível visão: sua mulher no sofá amarelo, em postura inconveniente, trocando afagos com um outro homem. E logo o seu sócio! Negócios, tranquilidade, o doce lar, tudo vem abaixo, como num pesadelo. Desesperado, Alves vê sua vida ruir e, indignado, anseia por vingança; afinal, perde-se a mulher, mas não se perde a honra. Com este enredo, Eça construiu esta novela, uma obra-prima de ironia e humor. E o desconforto de Alves, a sua ansiedade por lavar a honra, acaba por levar a um desfecho verdadeiramente surpreendente. Afinal, o que os vizinhos vão pensar?

Comentário:
Alves e Companhia é um dos romances menos conhecidos do grande mestre do realismo português. Na verdade, esta obra, publicada a título póstumo, está longe do fôlego dos grandes romances de Eça, como Os Maias. No entanto, estamos perante um dos livros mais agradáveis de Eça. A meu ver é este tipo de narrativa que devia ser incentivada nas escolas porque são livros como este, ou o Conde de Abranhos, ou ainda A Relíquia, que deliciam os leitores que apreciam uma narrativa leve e bem-disposta; por outras palavras, o valor deste livro reside essencialmente na motivação do leitor para depois enfrentar as obras mais profundas de Eça de Queiroz.
Alves e Companhia é um livro sobre a inação humana. Godofredo Alves é enganado pela mulher, com o seu sócio. A traição, segundo a tradição da honra masculina, exigia vingança, ou melhor, um ato de reposição da honra. Mas depressa ele se encontra sozinho nessa vontade de vingança e todos os que o rodeiam preferem fugir ao escândalo; os amigos têm medo de apadrinhar o duelo; o sogro prefere transformar em vítima a esposa traidora; esta prefere escapar-se para umas proveitosas férias na praia. E Godofredo fica só na sua dor, vendo todos os outros tirarem proveito da sua desonra.
Não andarei longe da verdade se disser que estamos perante uma crítica de costumes, mas talvez seja mais exato se disser que se trata de uma sátira de costumes; uns, os “machos latinos” aproveitam as mulheres dos outros para se divertirem; e como todos podem ser ao mesmo tempo traídos e traidores, tudo rola na paz dos Deuses; outros, como Godofredo, representam o romantismo tradicional, cheio de boas intenções e moral católica. O que é peculiar em Eça e que neste romance se torna o seu ponto crucial, é o facto de o escritor não tomar partido e parodiar de igual forma as duas atitudes.
Mais do que uma sátira aos comportamentos, o livro acaba por constituir uma sátira à própria moral, por um lado, e à tão satirizada “honra” do cavalheiro enganado.
Enfim, um livro bem-disposto, de leitura fluida e muito agradável. O bom velho Eça no seu melhor.
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