quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Olhos Verdes - Luísa Costa Gomes





Sinopse:
Olhos Verdes trata da aparência e do acaso. Os seus personagens fazem parte do mundo das aparências: trabalham em profissões ou têm inclinações que implicam uma evasão da realidade: Pedro Levi é modelo de roupa interior; Eva Simeão é viciada em TV; o seu ex-marido, Paulo Mateus, deslumbrou-se com a América, que é "outro mundo"; João Baptista Daniel, perseguido por Eva mas não se interessando por esta, é director de marquetingue; Beatriz, sua mulher, é revisora gráfica ("Passa a melhor parte do seu dia a tornar mais pitoresca a realidade"); as irmãs Fonseca, Maria do Céu e Maria das Dores, oscilam entre o esteticismo e o esoterismo; Ísis, amiga de Eva, dedica-se ao disaine; Lourenço é fotógrafo; Anadir é a rainha dos jingles publicitários... Com todos eles, Luísa Costa Gomes pinta um nervoso retrato dos seres da sociedade contemporânea, que se entrecruzam casualmente e se evadem da realidade. Um longo capítulo dedicado a George Berkeley, o filósofo britânico que tentou demonstrar que a realidade material só existe na percepção que temos dela, tenta enquadrar a narrativa numa moldura teórica. Luísa Costa Gomes criou um romance dinâmico, interessante e cheio de humor, que se reflete em muitas das suas linhas: "Tinha saudades dele a partir do metro e quarenta de distância"... "As pessoas são capazes de suportar tudo, desde que o possam suportar confortavelmente sentadas"... "O Bem vale mais que o Mal porque há de menos. É a lei da oferta e da procura."
(In Coleção Mil Folhas, Público)

Comentário:
Confesso que este livro me deixou confuso: as ideias fundamentais são interessantes:
- Uma sátira bem conseguida ao culto da imagem.
- Uma visão da vida algo sombria, em que os personagens usam o seu livre arbítrio para construírem a sua própria infelicidade.
No entanto, aos olhos do leitor comum, pouco atento aos “ismos” e pouco propenso a interpretações profundas ou doutrinais, há aqui alguma confusão entre o romance e o discurso filosófico; a partir de determinada altura a própria autora parece hesitar entre o desenvolvimento de um enredo interessante e bem delineado e, por outro lado, a exposição de ideias filosóficas que interrompem subitamente a narrativa.
O resultado final foi, para mim, leitor despretensioso, algo dececionante. Falta aqui uma linha narrativa que esteve sempre ao alcance da autora mas que esta parece ter recusado, na hesitação referida acima.
Para mim, esta dualidade entre filosofia e literatura de ficção não resulta numa leitura agradável porque, no meu subjetivo esquema mental, estamos a falar de duas dimensões fatalmente diferentes. É óbvio que os grandes escritores de ficção também deixaram marcas profundas ao nível das ideias, das formas de ver o mundo, das interpretações da alma humana, etc. Mas conseguiram fazer brotar essas ideias da ficção. Estou a lembrar-me de Dostoievski, Celine, Camus, Oscar Wilde, Saramago, Lobo Antunes, etc. Mas não foi isso que esta autora fez; o que Luísa Costa Gomes faz é sobrepor um discurso filosófico a uma narrativa que, embora à partida interessante, sai fatalmente atingida por esta mesma sobreposição.
Uma nota final para a forma original (e algo cómica) como a autora trata os estrangeirismos, escrevendo-os de forma “aportuguesada” em função da respetiva fonética. Alguns exemplos: brífingue, ol de entrada, disaine, luques, setendebai, etc.
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