sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Ferrugem Americana - Philipp Meyer




Sinopse:
Passado na Pensilvânia, num cenário de grande beleza mas economicamente destruído, é um livro sobre a perda do sonho americano e do desespero - bem como da amizade, lealdade e amor - que dela advêm.
Esta é a história de dois rapazes ligados à cidade pela família, responsabilidade, inércia e beleza, que sonham com um futuro para além das fábricas e das casas abandonadas. Isaac English é deixado a tomar conta do pai depois do suicídio da mãe e de a irmã ter fugido para a universidade de Yale. Quando finalmente decide partir, acompanhado pelo seu melhor amigo, o temperamental Billy Poe, antiga estrela do futebol do liceu, são apanhados num terrível acto de violência que muda as suas vidas para sempre. Ferrugem Americana, evocativa dos romances de Steinbeck, leva-nos ao coração da América contemporânea num momento de profunda inquietação e incerteza quanto ao futuro. Trata-se de um romance negro mas lúcido e comovente, acerca da desolação que se bate com o nosso desejo de transcendência e acerca da capacidade salvadora do amor e da amizade.

Comentário:
Na capa desta edição da Bertrand deparamos com uma citação do jornal Washington Post segundo a qual este livro segue a tradição de Hemingway e McCarthy. De facto, pode haver aqui algo da solidão de O Velho e o Mar ou algum tom distópico a lembrar A Estrada, no entanto, a meu ver, o que mais se destaca neste livro é o realismo de Steinbeck em Ratos e Homens ou na miserável saga da família Jude em As Vinhas da Ira, numa estória onde é nítida a influência de Jack Kerouac em Pela Estrada Fora.
Seja como for, este livro é a prova acabada de como é possível escrever um grande livro sem fugir à influência dos grandes mestres. O que Philipp Meyer fez aqui foi uma magnífica homenagem aos grandes génios da literatura dos Estados Unidos da América, plasmando aqui as suas grandes virtudes, nomeadamente a humanidade das suas descrições, nas situações mais pungentes do sofrimento humano e, ao mesmo tempo, uma espécie de grito de revolta perante uma sociedade cada vez mais desumanizada.
Está aqui todo o sentido crítico da grande literatura norte-americana, toda a arte de descrever e desmascarar as situações de exploração humana.
Confesso que quando vi este livro pela primeira vez pensei: “mais uma distopia; está na moda”. Mas isto não é uma distopia; não é uma visão escatológica da humanidade ou da sociedade americana; é uma descrição e uma reflexão profunda sobre a América atual. Uma América corroída pela ferrugem da crise económica, social e moral, mas também uma América perdida numa crise de identidade de valores que põe em causa todo o velho mito do sonho americano.
É genial neste livro a identificação das raízes da criminalidade e das injustiças sociais que lhe estão associadas; uma sociedade corrompida pelo neoliberalismo, uma justiça ofuscada pela aparência de um rigor implacável e, finalmente, uma ausência de esperança que manieta todos os velhos sonhos.
Mesmo assim, o final do livro deixa-nos um agradável sabor a esperança; uma certa crença na bondade natural do ser humano que as estruturas económicas e políticas teimam em deixar reservada à solidariedade entre os mais pobres e injustiçados.
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