sexta-feira, 18 de julho de 2014

Morte no Retrovisor - Vasco Graça Moura


Comentário:
A sua morte, há três meses, apanhou-me desprevenido. Isto é, sem nunca o ter lido. Abona-me como desculpa o facto de Vasco Graça Moura ter sido, acima de tudo, um poeta. Um grande poeta. E, como já afirmei várias vezes, não sou, por incapacidade minha, um apreciador de poesia. Fiquei, portanto à espera da oportunidade certa para me iniciar na prosa deste grande intelectual português e decidi começar por esta obra, feita de narrativas curtas e aparentemente apropriada a leitores pouco versados na sua obra.
Pois bem, raras terão sido as ocasiões em que tão agradavelmente surpreendido fiquei ao ler um livro. Foi com imensa surpresa que encontrei um VGM bem humorado, irónico, por vezes satírico, outras vezes sarcástico. 
A maior parte destas 22 narrativas estão também cheias de referências literárias, de incursões pelas vidas e obras de grandes escritores. Por exemplo, chega a ser hilariante a descrição das aventuras amorosas escaldantes do católico Graham Green com a sua catolicíssima amante. O conto “Diálogo na Oficina”, por exemplo, é uma divertida narrativa em que Luís de Camões depara com uma espécie de acordo ortográfico com a Inquisição de permeio. Genial e divertido.
É certo que algumas outras narrativas, mais reflexivas, são mesmo enfadonhas, mas a maioria destes contos são estórias simples e engraçadas, com motivos tão peculiares como um novo heterónimo de Fernando Pessoa, ou mais complicado ainda, um “ortónimo” (nome do autor que teve existência real)… Outro exemplo curioso do sarcasmo deste livro é a opinião que um inglês do século XVII revela sobre os portugueses, nesta frase lapidar: ”gente que costuma de por os seus semelhantes na fogueira a fim de mais expeditamente se evaporarem para o céu”…
 A morte, sempre à espreita no retrovisor destes contos, aparece irónica, com um sorriso, melodramática como um tango argentino.
O humor atinge os limites da gargalhada em O Porco de Cobrição que é, ao mesmo tempo, uma sátira mordaz a um certo tipo de religiosidade hipócrita. Mas é a mais fina ironia que dá o tom ao momento mais alto deste livro: uma carta imaginária de Camilo Castelo Branco a Eça de Queirós, com algumas alfinetadas a ilustrar a inimizade de estimação que unia (ou separava) os dois génios da nossa literatura oitocentista.
Nota final para o último conto: hilariante!

Sinopse:

Um menino obcecado por um periquito azul, enquanto graves coisas se vão passando; uma conversa na oficina de António Gonçalves, o impressor de Os Lusíadas; o reencontro fatal de um casal suburbano desavindo; um maestro fatigado que se deixa adormecer à beira-mar; uma história de sexo, assassínio e talvez espionagem; Graham Greene, padrinho e amante de Catherine Walston: a segunda carta que Philip Lord Chandos, filhos mais novo do Conde de Bath, escreveu a Francis Bacon; um caso de amor e morte, com a Alemanha nazi em pano de fundo e latas de sardinhas Walkyrie de permeio, uma tragédia operática no Largo do Picadeiro, os bizarros mistérios de um colégio de meninas de boas famílias… e mais uma dezena de outros universos singulares revisitados com uma ironia que vai das ficções engendradas pelo autor.
in www.fnac.pt
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