quarta-feira, 23 de julho de 2014

Novelas do Minho - Camilo Castelo Branco


Comentário:
Quem conhece Camilo Castelo Branco do Amor de Perdição e desse conhecimento formou opinião, certamente ficará surpreendido com estas Novelas do Minho. Trata-se de uma obra em que o nosso genial Camilo demonstra toda a sua versatilidade como escritor, pondo em evidência dotes de sátiro notáveis, capazes de fazer rir e sorrir o leitor mais sorumbático. Que grande distância marca este Camilo realista em relação ao Camilo romântico! Mas este realismo é substancialmente diferente daquele que foi cultivado pelo seu rival Eça! O realismo de Camilo vai mais longe na sátira, quer de determinados padrões sociais quer mesmo do próprio romantismo e do naturalismo, tão em voga no século XIX português; na verdade, o mundo rural, tão bucólico e romântico em Júlio Dinis, aqui é povoado de gente interesseira e paisagens dominadas pelo estrume dos animais.
Por exemplo, na introdução ao conto O Comendador, Camilo faz uma exposição delirante da cidade de Braga, com um humor muito sarcástico: os seus hotéis pouco higiénicos, o passeio público com toda a sua futilidade, as farmácias com preços exorbitantes, enfim, com toda a ironia, “uma segunda Paris”.
Camilo conhecia como ninguém o carácter minhoto: alegre, folgazão,  beberrolas, bom anfitrião, mas também vingativo em questões de honra e malandro quanto baste no que aos negócios diz respeito.
Mas também a crítica social é uma preocupação constante. No conto O Comendador, aborda o tema dos enjeitados de uma forma crítica e cómica: Belchior, o enjeitado, haveria de vingar-se da sociedade e recuperar a mulher amada, a riqueza e a honra.
A crítica social é o tema fundamental, também, do livro O Cego de Landim: o cego é uma figura de estilo que envolve um certo sarcasmo; é caso para dizer que ele de cego nada tinha: enganava tudo e todos, agindo com a ladroagem e ganhando outro tanto denunciando-os à polícia. É o retrato típico do malandrote à minhota que fez fortuna com base nos negócios pouco claros que, naqueles tempos, muitos procuravam no Brasil, regressando ao Minho como beneméritos.
No entanto, o Destino, como sempre nas novelas de Camilo, teria uma palavra a dizer…
A crítica política e social, em A morgada de Romariz: Silvestre de S. Martinho era um fogueteiro que encontrou por acaso um tesouro escondido pelo avô. E assim se fez nobre, comprando uma propriedade da fidalguia.
Em O Filho Natural, Vasco Marramaque foi eleito deputado por “novecentos mil-réis, trinta e nove cabritos e duas e meia pipas de vinho verde”. Aí “Chegou, no delírio da sua alucinação, a imaginar que no Parlamento era necessário saber a língua portuguesa!” Esta passagem faz lembrar A Queda de um Anjo na sátira política. 
Álvaro, filho enjeitado de Vasco vai enriquecer no Brasil, levado por outro Álvaro enjeitado que lá enriquecera: o Brasil é encarado como uma espécie de terra prometida, último recurso dos enjeitados.
Também o conto O Degredado está repleto de “farpas” políticas. 
Um belo conto é sem dúvida Maria Moisés. Nesta novela, mais do que em qualquer outra, CCB satiriza a sabedoria popular baseada em crendices e na ignorância. Mas o alvo maior é um conceito de honra e uma moral hipócrita e violenta, cujas maiores vítimas eram as mulheres que engravidavam fora do casamento e os filhos naturais daí resultantes. Os homens, esses, vivem alheios a tudo isso… 
Mau grado esta tendência antirromântica, CCB não consegue afastar-se totalmente das suas raízes românticas. Por exemplo este livro, Maria Moisés, é uma narrativa capaz de fazer chorar as pedras da calçada… Sem dúvida um belo exemplar da criatividade, da imaginação e do humanismo deste enorme escritor português.
Pela sua extensão, e também porque foi publicado em separado, decidi não incluir neste comentário a novela A Viúva do Enforcado, que será comentada em separado.

Sinopse:
Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura, "Novelas do Minho" teve apenas uma edição em vida do autor, publicada entre 1875 e 1877. O 1º volume, "Gracejos que Matam", publicou-se em final de 1875. No ano seguinte foi a vez dos 2º ao 7º volumes, respectivamente, "O Comendador", "O Cego de Landim", "A Morgada de Romariz", "O Filho Natural" e "Maria Moisés". No ano seguinte publicou-se a continuação de "Maria Moisés" (8º volume), "O Degredado" (9º) e a mais conhecida das novelas, "A Viúva do Enforcado" (volumes 10 a 12).
in www.fnac.pt
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