quinta-feira, 15 de julho de 2010

Uma Cana de Pesca Para o Meu Avô - Gao Xingjian


Este livro é um hino à simplicidade da vida e da escrita, que por vezes teimamos em complicar, talvez porque ainda não aprendemos com os orientais a beleza que há nas coisas simples.

Embora aparentem uma certa desconexão, estes contos complementam-se entre si: a paz e a felicidade de um quotidiano simples, cortado por um certo determinismo trágico; a beleza de um viver natural contrastando com a fatalidade do devir... tudo acontece porque tem de acontecer...

O primeiro destes contos do prémio Nobel chinês dá o tom para toda a obra: a alegria simples de um casal modesto, na visita a um tempo abandonado. Tudo simples, singelo, ingénuo. Ausência de sonhos e ilusões mas também de tristeza e lamentos.
O segundo conto narra a estória de um acidente em que um homem de bicicleta, com uma criança, é atropelado por um autocarro. O ajuntamento caótico de pessoas junto do acidente faz lembrar um formigueiro em torno de um bocado de açúcar. A curiosidade mórbida vai dando lugar a conversas especulativas, a interpretações disparatadas. Toda a catástrofe se transforma numa mera trivialidade e numa ocasião de convívio entre os transeuntes. E persiste a vida monótona de sempre…
Neste conto evidencia-se um certo determinismo: tudo acontece porque tem de acontecer, tudo é banal e inelutável. Tudo poderia ter sido diferente mas a todas as horas há crianças que morrem. Tudo é banal.
A normalidade da morte é também abordada no terceiro conto: o nadador não morre por causa de uma cãibra e de mordeduras de medusa mas bem podia ter morrido. Seria normal… talvez por isso ninguém quis ouvir a sua história.
Nada muda, nada pode ser alterado no conto seguinte: num banco de um parque, ele e ela reencontram-se mas nunca se encontraram; a vida separou-os porque sim. Agora, nada pode mudar porque ninguém muda e ninguém muda ninguém. Observam uma rapariga que chora, noutro banco. Não vale a pena consolá-la. Ninguém consola ninguém: nem elas a ela nem eles a eles próprios. 
O quinto conto, que dá titulo ao livro, é uma obra de arte em termos de criação literária. A nostalgia das recordações de infância, num ambiente bucólico destruído pelo progresso.
A cana de pesca é o símbolo da tradição, do paraíso perdido; o lamento angustiado de um mundo moderno feito de horários e rotinas; recordações de infância destruídas pelo cimento, pela poluição, pelos homens…
A linguagem, belíssima, profundamente poética descreve uma infância triste, em torno de um avô que faz lembrar a pureza da água do rio e o encanto das tradições ancestrais. Este tom assume uma beleza extraordinária ao contrastar com a tristeza das palavras usadas para descrever, de forma pungente, o rio que secou, as árvores que mataram, a aldeia que o progresso destruiu.
O relato da destruição da aldeia é intercalado com um relato de futebol, simbolizando o contraste entre a memória milenar e o presente fugaz, superficial, banal.
O sexto e último conto assume uma forma peculiar. Não é propriamente um conto, uma vez que não há uma estrutura narrativa linear mas sim um conjunto de imagens descritas, de instantâneos. Perpassa neles a monotonia dos dias, na sua beleza calma mas também nas tristezas e amarguras. O mar está sempre presente, constante e calmo, testemunha fiel dos tempos. A poesia do quotidiano. A nudez de uma mulher paira sobre espíritos e corpos. A água é a vida que escorre sobre os corpos. 

O céu é a luz inextinguível.
*Imagem retirada daqui.
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