segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Pintor de Batalhas - Arturo Pérez-Reverte


Quem se habituou às sensacionais histórias de aventuras, autênticos labirintos de intrigas e episódios rocambolescos, dos anterires livros de Perez Reverte, quem se habituou a ver nele o moderno contador de histórias de capa e espada, como as famosas aventuras do capitão Alatriste, não deixa de ficar surpreendido logo nas primeiras páginas desta obra.
Admirador confesso que sou deste escritor, confesso que fiquei inicialmente desagradado com esta mudança brusca. Deparei com um Reverte estranhamente reflexivo, mas, ao mesmo tempo, algo óbvio: as suas concepções do ser humano, a sua visão pessimista da alma humana, o halo negro que ele apenas bosquejava nos seus romances anteriores, aparecem aqui cruamente explícitas: o ser humano como um “rematado filho da puta” (pág. 82). Assim, declaradamente. Com todas as letras.
É, portanto, uma mensagem algo confessional: neste romance, a intriga ficcional envolve como uma nuvem bem clara, a concepção negativista de Reverte sobre a natureza da alma humana.
Depois de trinta anos a fotografar a morte, nas guerras mais cruéis das últimas décadas do séc. XX e início do XXI, Faulques, decide dedicar-se à pintura para representar a imagem que não conseguiu obter pela fotografia: aquela que representasse todo o caos do Universo; aquela que explicasse a geometria da desordem, a ordem do caos. Assim, começa a pintar um grande mural, no interior de uma torre de vigia circular. Aí é visitado por um ex-soldado croata que tinha sido fotografado por ele. A foto, premiada internacionalmente, capa de revista, tinha contribuído para uma série de desgraças que destruíram por completo a vida do jovem, em virtude de por esse meio ter sido identificado pelos inimigos. Os diálogos intensos, dramáticos, entre pintor e soldado preenchem as páginas deste livro, em que ambos percorrem um olhar angustiado pela vida, pela tragédia que compõe a vida humana.
A geometria do caos: eis o que ambos procuram. E só a arte poderia delinear esses traços geométricos, descobrir as linhas claras com que se desenha a vida. Uma visão amargurada e pessimista da alma humana mas que deixa o leitor perplexo perante o realismo dessa mesma visão.
Não são, afinal, os fotógrafos de guerra que procuram a morte e a divulgam. Não são eles os portadores da violência e da maldade. É a morte que os procura, porque a morte está na vida, está presente nas linhas ortogonais dessa ordem oculta a que talvez possamos chamar destino.
A ciência e o amor nada explicam, nada remedeiam. São apenas analgésicos. Como Olvido (note-se a simbologia do nome), a mulher que Faulques amou. Ela permitiu-lhe apenas alimentar a vida. Ela foi o analgésico para a maldade e para o ódio. Só a arte, a pintura, ainda que assumidamente medíocre, permitiu a Faulques e ao próprio soldado compreender essa ordem escondida, essa normalidade do mal.
Um livro profundamente reflexivo, amargurado, mas real, sentido, que vai ao âmago das questões essenciais da vida humana. Um livro ambicioso, em que Reverte prescinde daquela dimensão lúdica tão característica dos seus livros, para ensaiar uma abordagem intelectualmente elaborada e filosoficamente profunda da vida humana e dos caminhos ignóbeis que a humanidade traça.
 * Quadro que compõe a capa da edição ASA deste livro

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