segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Templo Dourado - Yukio Mishima

Yukio Mishima é com justiça considerado o mais talentoso escritor japonês do século XX. O meu interesse por Murakami levou-me a tentar descobrir as entranhas da literatura nipónica e não foi difícil descobrir este magnífico Mishima onde Murakami foi certamente buscar uma das suas mais significativas influências.
Este livro, o seu maior sucesso, conta-nos a estória de um jovem que, nas imensas dificuldades que encontrou durante a infância e juventude, encara o templo dourado como uma espécie de sonho, de mundo ideal, que vai norteando a sua vida.
A paisagem natural, deslumbrante e descrita com um fascínio muito peculiar, contrasta com a vida e os sentimentos de Mizogushi: tudo na sua juventude foi catastrófico – o fim trágico do seu primeiro amor, uma mãe que nunca amou, a morte prematura do pai, a miséria material, o contexto trágico da segunda guerra mundial, com a bomba atómica e a derrota do Japão e, acima de tudo, a sua gaguez, que o impedia de ter um comportamento social normal. Tudo era negativo, assustador e trágico. O Templo Dourado era o sonho que alimentava os seus sonhos e a sua imaginação; o seu mundo interior.
Ser solitário era uma fatalidade. E essa solidão conduziu-o a uma vida interior intensa; a hostilidade do mundo não era, no entanto, motivo de infelicidade. A sua solidão e o seu carácter introspectivo davam-lhe uma quase felicidade porque nada pedia ao mundo. A realidade era como era, como tinha de ser e talvez um dia o seu mundo se sobrepusesse a ela… ele não precisava de se transformar para se adaptar ao mundo; todo o seu mundo existia na alma e o sonho era, ao mesmo tempo, o invólucro e o coração desse mundo interior.
Kashiwagi, seu companheiro de escola, com os seus pés chatos, encara a sua imperfeição de forma positiva – como se, sem ela, ele passasse despercebido o que, isso sim, seria trágico. Tem orgulho em que todos olhem para ele, mesmo que essa atenção se deva à deficiência. O amor, por exemplo, levaria a que ele se diluísse no mundo; não é isso que ele quer. “Substituíra o amor pelo desejo, facto que me dera a paz”. Kashiwagi só pode ser feliz se mantiver essa distância em relação ao mundo, essa distância que lhe permite manter uma perspectiva superior em relação ao real.
A morte do melhor amigo de Mizogushi leva-o de novo à mais profunda solidão. Resta-lhe Kashiwagi, aquele que vive segundo o desejo. Este carácter hedonista do amigo, leva Mizogushi e deambular entre o Kashiwagi e o sonho do Templo Dourado – entre os apelos do mundo e o seu imenso eu interior. “O templo Dourado surgiu entre a vida e eu”.
Após, finalmente, entrar para o seminário do Templo Dourado, as aventuras amorosas do Prior e o descrédito que a religião instituída lhe vai provocando, leva-o a fugir do Templo. Foge da impotência que vê em tudo. “Fujo da ideia que tenho de beleza que me amarra, do desleixo, das condições em que vivo, da gaguez…” Mas será mesmo disso que foge? Ele fugiu para o mar. E o mar é poder!
Na fase final do livro, após o regresso ao Templo, ele assume um estado de alma a que nós, ocidentais chamaríamos loucura. O seu Eu interior anseia por assumir um papel de divindade e a remissão do mundo (sintetizado no Templo Dourado) só pode dar-se pela destruição. Na alma de Mizogushi não há lugar para a compaixão. O mundo não a teve por ele; por isso, ele não a deve ao mundo. O mundo e o homem caminham para a destruição e assim terá de ser…
Esta visão apocalíptica do mundo (que tem muito a ver com a terrível derrota do Japão na segunda guerra mundial e que provocou a ruína do seu sistema imperial) surge como o desembocar de todo um caminho em que o Eu se opõe ao mundo, num afastamento progressivo e trágico. A destruição do templo mostraria aos homens que tudo é perecível.
E o mundo não voltará a ser o mesmo quando morrer o imperecível. Quando o Eu assumir a divindade em pleno. Porque todo o homem anseia ser Deus.
 Imagem: o templo budista conhecido como Templo Dourado, no Japão. Imagem retirada daqui.

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