quinta-feira, 8 de julho de 2010

Olhai os Lírios do Campo - Erico Veríssimo

"Erico Veríssimo é um dos mais conhecidos escritores brasileiros do século XX.
Faleceu em 1975 tendo publicado mais de 30 livros, entre romances, livros de viagens, biografias, contos e livros infanto-juvenis.
Olhai os Lírios do Campo é um dos seus primeiros grandes êxitos. Publicado em 1938, narra a vida de Eugénio, um jovem nascido na pobreza, que luta pela afirmação numa sociedade marcada pelas ambições materiais. A partir daí, Eugénio travará uma encarniçada batalha entre a ambição pelos bem materiais e a necessidade de repensar a sua própria personalidade, na busca da sua harmonia interior.
O livro inicia-se num tom realista, típico da época, com traços bem nítidos de influência socialista na forma como se debruça sobre as injustiças sociais e as desigualdades. No entanto, desde logo Veríssimo vai mais longe, empreendendo uma viagem ao interior da alma de Eugénio, um ser complexo, perdido entre uma infância miserável, sofrida e uma idade adulta onde vagueia entre um casamento por interesse com Eunice (que lhe deu todos os confortos com que sonhara) e uma vida de médico modesto, ao serviço dos pobres.
Pelo meio, a paixão da sua vida, Olívia, aquela que lhe apontou as estrelas do céu e os lírios do campo, que, no entanto, na sua ânsia revoltada, Eugénio se vai recusando ver.
Todo o livro é a história dessa intensa luta interior, dessa guerra que todos nós travamos entre o material e o espiritual, entre o nosso Eu que se perde constantemente, escondido muitas vezes nos sítios que, de tão óbvios, se tornam improváveis e o mundo lá de fora, que é sempre o mundo para onde olhamos com avidez, o mundo do dinheiro, do poder, da exterioridade.
Para Eugénio, a guerra torna-se insuportável, porque sabe que os Lírios e as estrelas estão ao seu alcance. Sofre porque não resiste à tentação de redimir a miséria com a conquista do poder, com a ganância, a tentação de uma vida fácil. No entanto, a alma de Eugénio anseia por paz; uma paz que ele não encontra no mundo material.
Na infância, Eugénio convive com a miséria de um pai alfaiate pobre, um pai que ele não consegue amar porque o associa à miséria. Daí a humilhação. Na escola, na rua, ele é constantemente humilhado por ser miserável. E a raiva cresce. A pobreza torna-o insensível e egoísta; e os extremos tocam-se: em breve a humilhação se transforma em prepotência, numa ânsia freudiana de superioridade, de afirmação brutal sobre o mundo… um mundo tenebroso, que a mente sofrida de Eugénio vê em construções mentais tenebrosas, cheias de revolta e mesmo ódio…
Eugénio tem vergonha. Vergonha da pobreza, da humilhação e… do pai. É nítida aqui a influência das teorias de Freud, em voga na época. Eugénio ama o pai pela piedade que este lhe desperta, mas detesta-o pela falta de ambição, de orgulho e pela humildade extrema. Durante a adolescência, na rua, Eugénio, junto dos amigos, finge que não conhece o pai. Estas e outras recordações negras marcarão a vida de Eugénio, que o atormentam constantemente.
Eugénio é um ser que pensa. Ou seja, um ser que sofre. Não pára de encontrar contradições: trabalha e estuda para ter um futuro melhor que o dos pais; no entanto, recrimina-se por se achar superior aos pais.
Chegados a este ponto, velhas e profundas questões assolam a mente do leitor:
- É mais revoltante a pobreza causada pela injustiça social ou o desprezo que a sociedade dedica aos mais pobres, vendo-os como portadores de uma espécie de doença contagiosa?
- Perante estas injustiças, valerá a pena questionar a vida, pensar, problematizar? Não será mais feliz o idiota, o imbecil que nada questiona? Ou haverá uma espécie de meio termo entre o sofrimento de quem pensa e a idiotice de quem passa ao lado de tudo isto?
Olívia dará a resposta.
No final da formatura, Olívia e Eugénio aparecem-nos unidos pela humilhação da sociedade e pela pobreza. Juntos na infelicidade manifestam, no entanto, atitudes completamente diferentes: Eugénio procurará vingar-se da vida, construir o seu império, dominar, triunfar, ser rico…
Olívia, essa, tenta que Eugénio veja os lírios do campo e as estrelas do céu. Mas a sua ânsia de poder é imparável. E vai sofrendo: com os pacientes que morrem, com os miseráveis que tenta curar a ajudar, com as guerras e revoluções. À sua volta persiste a miséria e a injustiça. E ele próprio não consegue sair dela. E pensa. E sofre.
Conhece Eunice, filha de um grande empresário e casa com ela. Ama Olívia mas tem de a sacrificar para conseguir a ambicionada riqueza, o estatuto social, o reconhecimento e a desnecessidade de trabalhar. Operários morrem na fábrica do sogro, outros trabalham em condições miseráveis, mas na alta sociedade não se fala de sentimentos; isso é “coisa de pobre”.
Tudo se passa como se Eugénio fosse um somatório de dois “Eus” que não se encontram por serem contraditórios: Eugénio foge de si; não pára para ver as estrelas. E até ao final do livro, Eugénio lutará.
Mas estrelas hão-de triunfar. Para Eugénio ainda haverá redenção. Olívia morrerá. Mas não a vida. Anamaria, a filha de ambos será a porta-voz dessa redenção. Eugénio deixará de “escarafunchar” as feridas; deixará de procurar a culpa; deixará de procurar vingar-se da vida. Descobrirá a verdadeira vida, após a morte de Olívia. A vida simples de quem se despe da vaidade e do egoísmo. A paz de quem recusa o materialismo capitalista e uma sociedade feita de aparências e injustiças. A paz de quem vive com os outros e para os outros."
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