sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Vida e Destino - Vassili Grossman



Nos últimos tempos, em alguns círculos políticos e intelectuais tem pontificado uma polémica algo absurda, entre alguma esquerda tradicional e a direita mais extremista: cada lado parece querer provar a tudo o custo qualquer coisa como isto: o teu ditador é ainda pior que o meu. Esta polémica parece-me algo insana,  pelo simples facto de que, como o comprova Grossman, ambos estes sistemas totalitários foram absolutamente desumanos. Inclassificáveis!
Sturm é talvez a personagem central do romance: cientista judeu ao serviço do Estado Soviético, ele sofrerá de forma dramática o efeito tenebroso de duas das mais monstruosas tiranias do século XX – o nazismo e o estalinismo. Neste sentido, Sturm é um personagem algo auto-biográfico: também Vassili Grossman, funcionário do Estado Soviético mas sempre crítico em relação ao sistema, sofreu a perseguição dos alemães aos judeus, que acabaram por assassinar a sua mãe. Mas a acção está longe de se resumir a Sturm. Numa aparência a fazer lembrar Tolstoi pela enorme quantidade de personagens (umas centenas) conta-se a história de parentes e amigos de Sturm, em diversos cenários, como a batalha de Estalinegrado em plena acção, um campo de concentração nazi, um campo de trabalho soviético, etc. Mas a comparação com Tolstoi termina aí. Termina onde começa: na quantidade inusitada de personagens. Em termos literários este livro está muito longe desse clássico russo. Em termos de estilo Grossman aproxima-se mais da literatura realista da Rússia, nomeadamente de Maximo Gorki mas também dos contos de Tchekov. E o valor maior da obra é mais histórico do que literário.
Vida e Destino é uma obra de enorme alcance enquanto testemunho histórico. Ela testemunha quer a violência nazi quer a inconcebível ditadura em que Estaline transformou o sistema comunista da União Soviética. Escrito em 1953, este livro só seria publicado vinte anos depois, após a abertura da URSS à democracia. O motivo é óbvio: o livro desmascara de forma clara o despotismo de Estaline. A vitória do absurdo e do arbitrário sobre o romantismo do ideal comunista que o autor parece encarar como o paradigma ideal. Na verdade, Lenine é referido várias vezes como o exemplo a seguir, o ideal que foi deturpado e derrubado pelo estalinismo. E a simpatia do autor fixa-se claramente nos bolcheviques desiludidos como Mostovoskoi e Krimov.
O enredo decorre, todo ele, de 1941 a 1943, numa fase em que a guerra matava aos milhares e em que o povo russo sofria as terríveis consequências da ocupação alemã. No entanto, o que fica no espírito do leitor é a sensação de que a guerra pouco ou nada mudaria, que os grandes dramas estavam para lá da guerra.
E o mais abominável é esta sensação de que todo o mal é praticado em nome do bem; o bem dos judeus, dos católicos, dos comunistas, dos nazis…e cada noção de “bem” é apenas um motivo para praticar o mal.
Em conclusão: estamos perante um livro muito importante como reflexão sobre a natureza do poder totalitário e como testemunho histórico de uma época de quase total insanidade. No entanto, não é uma obra prima em termos literários. Nem se pretendia que fosse.
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