terça-feira, 3 de julho de 2012

Liberdade ou Morte - Nikos Kazantzakis



Nikos Kazantzakis ficou mais conhecido por Zorba, o Grego, que deu origem ao filme e ao tema musical que ficaram na história; ou então pelo livro que deu origem ao famoso filme de Scorsese, A Última Tentação de Cristo.
Escrito em 1950, este livro retrata a revolta contra o domínio turco por parte do povo da ilha de Creta, onde Kazantzakis viveu na infância. O personagem principal, o capitão Micael (diz-se) retrata o próprio pai do escritor, o que nos dá uma certa explicação para a escrita dura e brutal de Kazantzakis. Na verdade, o estilo é duro, impiedoso como o personagem.
Aparentemente, descreve-se uma luta heroica de um povo e de um homem contra uma dominação tirânica. No entanto, digo “aparentemente” porque, ao mesmo tempo, esta descrição é feita quase à maneira de uma caricatura; ao longo do livro o leitor hesita: será isto uma paródia da revolução ou um elogio dessa mesma revolução?
Talvez a verdade se encontre a meio caminho entre a sátira e o elogio da revolta. O capitão Micael representa o sacrifício da própria vida perante a luta contra uma tirania odiosa, exercida pelos turcos.
A aldeia (Cândia) onde se desenrola a ação está dividida entre cristãos e islamitas que convivem pacificamente até que as autoridades turcas decidem aumentar a repressão sobre a população cristã, nos finais do século XIX. É nesse contexto que alguns cristãos pegam em armas e as atrocidades multiplicam-se. A luta religiosa, o ódio em nome de Deus toma as rédeas da narrativa até se atingir uma espécie de climax quando o leitor percebe que a luta já devorou por completo a individualidade dos personagens. Chega-se a um ponto em que eles já não têm vida própria; tudo se desenrola em função da luta: ódio, repressão e vingança.
Um dos pormenores que melhor marca este caminhar para o absurdo é a forma como Kazantzakis nos descreve as crianças: todas as brincadeiras são marcadas pela luta e a mentalidade infantil é totalmente dominada pelo ódio; o comportamento das crianças torna-se absolutamente cruel, violento, mesmo nas brincadeiras mais pueris, até que também elas vejam a sua vida totalmente preenchida pela luta.
Outro aspeto interessante é a maneira como Kazantzakis nos apresenta a fé deste povo cristão, uma fé também ela dominada pelo ódio, por um lado, e pelo absurdo por outro. Por exemplo: Barbaianis, cristão, viúvo infeliz, bêbado e pobre, vê S. Minas (o patrono da aldeia) sair do altar para vigiar e proteger a aldeia, em rondas noturnas. Além dos cães, só ele e o louco Efendinho o conseguem ver.
Este pormenor marca a transição da narrativa para a caricatura. Paulatinamente, o leitor vai-se apercebendo que o autor vê a luta como uma espécie de insanidade; as pessoas recusam-se a viver a não ser para a luta. Tudo gira em função disso. Perde-se a personalidade e todo o sentido da existência. A humanidade traída pela estupidez da luta. A religião como elemento de discórdia e de ódio.
O aspeto mais fascinante deste livro é precisamente a forma como o autor soube, magistralmente, mesclar o horrível com o caricato; o dramático com o humorístico. Se bem que se trate de uma obra extensa, não deixa de ser uma leitura agradável e mesmo divertida.
Uma boa surpresa, em suma, este grego Nikos Kazantzakis.

3 comentários:

São disse...

Gostei de todas as obras deste escritor, que não leio há muito tempo.

Do que não gostei, me desculpe, foi das letras de verificação, rrss

Bom dia.

Manuel Cardoso disse...

Olá São
foi graças à sua observação que descobri que era possível desativar as palavras de verificação :)
Obrigado

José M. Sousa disse...

Estou a ler este livro e concordo consigo!