segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Sala de Vidro - Simon Mawer


Sinopse
Situada na Checoslováquia, no cimo de uma colina, a Casa Landauer é uma maravilha de aço, vidro e ónix, construída especialmente para os recém-casados Viktor e Liesel Landauer, um judeu e uma gentia. Mas a retidão resplandecente dos anos 30 que a casa, com a sua invulgar Sala de Vidro, parece emanar, rapidamente perde o brilho à medida que se congregam as nuvens de tempestade da II Guerra Mundial, e a família acaba por ter de partir, acompanhada pela amante de Viktor e a filha desta. 
Porém, a história da casa está longe de chegar ao fim e, à medida que esta vai passando de mão em mão, dos Checos para os Russos, o melhor e o pior da história da Europa Central é de certa forma encarnado e talvez encorajado pelas belas e austeras superfícies e pelos planos tão cuidadosamente concebidos, até que os eventos completam o círculo da narrativa


Comentário
Eis um livro surpreendente. A ideia, genial, é traspor para a escrita uma obra de arte arquitetónica. Por outras palavras: escrever um livro em que sejam expostas as características fundamentais na chamada Nova Arquitetura, que marcou os anos 20 e 30 da história da arte.
O resultado desta ideia é um livro brilhante.
A casa que dá origem ao livro é um exemplo típico da Nova Arquitetura, cujos expoentes máximos foram os arquitetos Le Corbusier e Frank Loyd Wright.
A casa é absolutamente geométrica. Traços ortogonais. Da mesma forma, o livro é traçado de uma forma simples, linear. É tempo de dizer que um grande livro pode ser simples e fácil de ler; um grande livro não tem de ser enigmático e cheio de arabescos como a arquitetura barroca. Um grande livro, como este (e como a casa) é belo por ser simples, sem nunca perder aquela dimensão simbólica que nos faz encará-lo como uma verdadeira obra de arte.
Logo nos primeiros capítulos fica claro que a enorme sala de vidro que preenche a zona mais importante da casa revela uma transparência que se estende do vidro à vida das personagens; assim como a casa se “vê por fora” também os personagens são visíveis mesmo nos aspetos mais íntimos das suas vidas. Como se nada nem ninguém pudesse esconder ou esconder-se.
Talvez nunca na história da literatura uma obra de ficção se assemelhasse tanto a uma obra de arquitetura; o livro lê-se como quem contempla aquela casa. Geometria e transparência. Vidro e páginas; linhas retas, ortogonais e páginas simples, vidas gizadas a régua e esquadro.
Com a invasão alemã (a ação decorre na atual República Checa) os nazis transformam a casa num laboratório científico. O autor, de forma bastante sagaz, coloca-nos perante a velha questão da ciência e da arte como paradigmas fundamentais da vida humana; os nazis, na sua ânsia de obter as coordenadas da raça perfeita apresentam-se em contraponto com a paz dos anos 30, em que a família Landauer encarou a casa como o exemplar perfeito da arte. A arte aparece assim associada à paz, à beleza, à felicidade e a ciência associada às necessidades e contexto da guerra.
Na fase final do livro a ação perde algum fulgor. O leitor fica com a sensação que o autor teve necessidade de abreviar o enredo, talvez pela dimensão que a obra já revelava. O pós-guerra é apresentado de uma forma algo abreviada, com uma incursão rápida até à época de ruina do sistema soviético, num ritmo narrativo completamente diferente da primeira parte do livro. Esta assimetria de tempos narrativos prejudica um pouco o livro, deixando o leitor algo desapontado pela forma quase precipitada como o autor caminha, apressado, para o desfecho.
Mesmo assim, estamos perante uma verdadeira obra de arte que nos leva a querer ler mais deste autor que, pessoalmente, desconhecia.
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