domingo, 15 de julho de 2012

O teu rosto será o último - João Ricardo Pedro


Sinopse?
Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu. 
Através de episódios aparentemente autónomos - e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial. 
Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias - muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras - que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?


Comentário:
Um dos principais méritos desta obra é que envolve uma avaliação curiosa e historicamente bastante correta da revolução de abril e do antigo regime. Estão aqui expostos de forma clara muitos dos problemas gerados pela ditadura na mentalidade e nas estruturas da vida portuguesa no século XX.

Sentido de humor bem à portuguesa, com muito calão pelo meio. Esta opção do autor pode ser controversa e já gerou, certamente, reações adversas. No entanto, neste caso, o calão parece-me bem enquadrado. Por um lado confere à leitura esse sentido de humor bem português e por outro transmite um certo realismo ao enredo.
Por outro lado, o relato dos costumes, acontecimentos e realidades típicas da história contemporânea de Portugal, é bastante sugestivo, de leitura fácil e muito agradável, fazendo lembrar a série Conta-me Como Foi. Assim, o livro capta com facilidade a atenção dos leitores de uma faixa etária acima dos 35 anos. Um dos exemplos mais bem conseguidos é o da Volta a Portugal em bicicleta, com todo o folclore, toda a emoção que a corrida envolvia noutros tempos, antes da invasão do ciclismo pela mentalidade capitalista. No extremo oposto, na zona cinzenta das desgraças lusas, está a guerra colonial, esse monstro que devorou o Portugal salazarento após 1961 e que aqui é ilustrado pela desgraçada vida de António, o pai de Duarte: uma vida sacrificada por nada, tal como milhares de outras, vítimas do capricho anacrónico de um regime fascista apodrecido pelo ódio e pela insanidade.
O autor revela também uma extrema sensibilidade no tratamento dos assuntos mais sérios, como a doença da mãe de Duarte, assim como a prisão e assassínio do pai dela. Um cuidado e uma delicadeza que deixam o leitor entusiasmado com a forma sentida como o sofrimento humano é exposto. A sensibilidade da escrita é, nestes capítulos, notável.
Pessoalmente penso que o livro perde um pouco com a tentativa de adensar o mistério em torno da morte de Celestino, que torna o desfecho algo confuso.
Seja como for, estamos perante um autor com qualidades suficientes para garantir o sucesso no panorama literário português.
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