sábado, 7 de julho de 2012

Que farei com este livro - José Saramago



Sinopse:
A pergunta é formulada por Camões, quase no final da obra, e o livro a que se refere não poderia ser outro se não "Os Lusíadas". Que farei com este livro? Saramago decidiu fazer mais uma peça de teatro, uma obra cuja ação decorre em Almeirim e Lisboa, entre Abril de 1570 e Março de 1572, ou "com menor rigor cronológico, mas com maior exatidão, entre a chegada de Luís de Camões e Lisboa, vindo da índia e Moçambique, e a publicação da primeira edição de 'Os Lusíadas'". Entre personagens históricas também há lugar para os tais representantes do povo e para o escritor, todos a acompanhar a edição de "Os Lusíadas". Ou de um outro livro qualquer. "Se eu fosse esmolar pelas ruas e praças talvez me dessem dinheiro para comer. Mas não mo dariam se seu dissesse que o destinava a pagar ao livreiro que me imprimisse o livro." Foi Camões ou Saramago a dizê-lo? (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"

Comentário:
Peça de teatro publicada em 1980, dois anos antes da obra prima Memorial do Convento, é um livro que define, já nessa fase inicial da sua carreira, o estilo ácido, corrosivo, de José Saramago.
Não é exagero se afirmar que o livro se resume a uma sátira aos vícios do reino, vícios de ontem e de hoje. Bem ao seu estilo, Saramago vai buscar ao passado glorioso do tempo das descobertas, exemplos dos grandes vícios, das grandes misérias mentais deste povo e destes políticos que nos oprimem há centenas de anos. O enredo começa com um sugestivo e simbólico diálogo entre dois irmãos; um, jesuíta, é o clérigo que manobra os cordelinhos do reino através do confessionário. Trata-se de D. Luís da Câmara, confessor do Rei D. Sebastião, o monarca para quem a governação era uma tarefa secundária. O outro personagem é Martim da Câmara, secretário de Estado mas que deve o seu cargo às influências do irmão mais velho, o jesuíta.
O âmago do livro, no entanto, reside na personalidade de Luís de Camões. Homem pobre e honesto, a quem os favores do rei só seriam concedidos se os poderosos do reino o protegessem. Ontem como hoje: não é o mérito que permite o reconhecimento do génio mas sim a oportunidade. O orgulho de Camões, que procura apenas justiça, simboliza a força da arte perante os interesses materialistas e das vaidades humanas.
Personagem, sem dúvida em destaque é Damião de Góis, o célebre humanista português, um homem sem dúvida adiantado em relação à época em que viveu e que por isso mesmo haveria de ser vítima da Inquisição. A clarividência de Damião de Góis e a sua genialidade estão bem patentes neste trecho: “Falta a Portugal espírito livre, sobeja espírito derrubado. Falta a Portugal alegria, sobejam lágrimas. Falta a Portugal tolerância, sobeja prepotência”. Fica clara a grande atualidade deste espírito moderno que marcou a Renascença portuguesa.
No extremo oposto fica a mentalidade tradicionalista que reinava na corte, bem patente na forma como a Inquisição acabou por permitir a publicação d’Os Lusíadas, mas apenas “porque veio muito bem recomendada”. Ontem como hoje. Pelo menos, naquele tempo, a Inquisição tinha rosto.
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