terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Fronteiras Perdidas - José Eduardo Agualusa


Comentário:
Neste blogue já muito se falou da literatura africana de língua portuguesa. Mia Couto, Onjaki, Pepetela, Agualusa, etc. não são apenas bons escritores. São génios. Nesta obra deparamos com uma seleção de pequenas narrativas, contos breves, escritos numa linguagem simples mas cuidada, ornamentada e perfumada pela presença constante da terra africana, das suas sombras e mistérios. E, acima de tudo, a alma africana, expressa nos homens mas também construídas pela natureza selvagem, feita de plantas, animais, terra, paisagem...
Sobre estes alicerces constitui-se um palco por onde desfilam as mais diversas personagens, todas estranhas, todas humanas.Alguns exemplos:
Tudo começa num hotel abandonado, fantasmagórico, tal e qual a nação angolana deprimida pelas guerras...
Um pintor revolucionário, deprimido, desiludido - "o socialismo é o caminho mais longo entre o capitalismo e o capitalismo" - Angola já não é o que era; já não é colonial; já não é revolucionária. Morreu o colonialismo mas morreu também a esperança...
Plácido Domingo é nome de traidor; um traidor fascista que foge aos homens refugiando-se na natureza.
Severino, jovem terrorista de Piuixe (vila de Pio IX) queria desviar o elevador de um prédio a fim de fugir para Cuba, à procura do socialismo...
Raquel, na verdade, chamava-se Fronteiras Perdidas porque em África um nome marca um destino. E Raquel umas vezes era branca, outras vezes mulata, desfazendo fronteiras. Como África que já não é branca nem preta.
Um assassino antropófago enlouquecido pela guerra: "Este país já não é  nosso". Este é o ponto fulcral do livro, tocando um tema transversal a toda a obra de Agualusa: a perda de referências de um povo e de uma nação. Ou de como o desenraizamento leva à desumanização.
A escrita de Agualusa é profundamente poética e triste; melancólica. Há nela a beleza de  paisagens sombrias, personagens quase autómatos, quase mortos-vivos, condenados a um mundo desumanizado.

Sinopse (in www.wook.pt)
Um morto da guerra descansa numa caneca de leite, a meio da noite, em Luanda. Está um passageiro transformado em serpente no lavabo do avião. Um elevador, no Recife, foi desviado para Cuba por alturas do quarto andar. 0 sonho, o delírio, a vergonha, a fé, a pele, a memória, o feitiço, o nome -o ódio e a entrega - são territórios de exílio, e nessa condição, lugares de morança. Misturam-se com uma fluidez voraz: são «Fronteiras Perdidas», linhas de vida de outra maneira, um catálogo de paisagens oníricas. Histórias que não são visíveis mas são visitáveis. Este livro é um caminho para elas e encerra pequenas sabedorias. Por exemplo, a maior: não existem sítios, apenas posições. «Não há mais lugar de origem», diz um dos percursos. Ou então: um hotel em que alguém afirma que dormiu e que está abandonado há anos. E Placido Domingo contempla o rio, em Corumbá.
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