domingo, 25 de janeiro de 2015

Lendo Galveias - De volta à Ruralidade


A versatilidade parece ser uma das palavras-chave da escrita de José Luís Peixoto. Galveias (cuja leitura levo a meio) não se parece com nenhum dos seus livros anteriores. É, na minha perspetiva, uma agradável surpresa, por se tratar de uma incursão por um género que Peixoto ainda não explorara e que constitui um domínio tradicional da literatura portuguesa: o romance rural.
Na verdade, a ruralidade foi sempre um traço distintivo de alguns dos nossos melhores escritores. Logo no século XIX, Júlio Dinis presenteou-nos com pérolas deliciosas do romantismo como A Morgadinha dos Canaviais ou esse belo livro As Pupilas do Senhor Reitor. O grande Camilo, por oposição ao urbano Eça deixou-nos páginas brilhantes de ruralidade em obras geniais como as Novelas do Minho, Eusébio Macário ou A Brasileira de Prazins.
Já no século XX, é o neorrealismo, impulsionado pela necessidade de uma perspetiva critica face à ditadura, que assume a voz do povo rural, empobrecido pelo Estado Novo. É neste contexto que se afirmam nomes grandes como Alves Redol, Ferreira de Castro, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, etc. Numa perspetiva um pouco menos crítica, um escritor algo injustiçado pela crítica: Fernando Namora. E um escritor enorme da literatura portuguesa: Miguel Torga, esse poeta brilhante que fez poesia das fragas de Trás os Montes, do suor e do sangue do povo a que ele orgulhosamente quis sempre pertencer.
Agora, em pleno século XXI, é Miguel Torga que eu leio em José Luís Peixoto; um Miguel Torga modernizado, com motorizadas Famel e muito sentido de humor mas o mesmo povo sofredor e, acima de tudo, muito português.

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