terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Hóspede de Job - José Cardoso Pires

Há dias escrevia alguém que, com a morte de Saramago morreram os escritores politicamente comprometidos. Santa ingenuidade! Temo é que com a morte de Saramago e após a morte de Cardoso Pires esteja a morrer o talento e a sensibilidade humana neste país de curta memória.

Para compreender o espírito deste livrinho genial é importante saber-se que foi escrito nos anos 50, em memória do irmão mais novo do autor, que morrera num acidente militar.
Importante também salientar que é a primeira obra do autor. E que obra! É maravilhoso verificar como, com menos de 30 anos, Cardoso Pires revelava já um talento literário notável, ultrapassando largamente a influência neo-realista que é patente no livro.
Algures no Alentejo, o livro inicia-se num quartel inútil, com uma conversa inútil entre soldados inúteis. Uma conversa sem sentido, alimentada pelo vinho que engana o tédio e a inércia dos soldados. Soldados que são homens roubados à planície, braços subtraídos às searas, enganando o tempo sob a luz obscura de uma garrafa…
Fora do quartel reina o desespero de um povo esfomeado sob o sol escaldante dos campos de trigo. E a GNR. E a opressão sobre a revolta silenciada.
Multidões de camponeses percorrem os caminhos do desespero. Sem pão nem paz deambulam pela planície em busca de trabalho, perseguidos pela Guarda, como ladrões, como cães escorraçados pelos Senhores da terra que não é de quem a trabalha.
A Guarda e a Tropa sem guerra desprezam os camponeses; até a água lhes roubam. “Para a Guarda isto é a guerra”, diz o Tio Aníbal. É o absurdo de uma guerra em tempo de paz.
Os soldados estão em manobras, divertidos como crianças que brincam com brinquedos caros. E a gente miserável foge da fome.
A sacristia da capela, transformada em prisão é testemunha fria dos tempos; o povo já não reza… “uns vencem os pecados com rezas, outros com a liberdade – era a lei geral, e ambos prestam contas, à sua maneira” (página 132).
Gallager, o especialista americano em guerras e armamentos é o hóspede de Job. Um hóspede que não foi convidado e que se serve da miséria do povo. Ele é a arrogância entre os humildes; a força no meio dos impotentes; o poder entre os deserdados da fortuna.
E João Portela é o sacrificado no altar do poder tirânico de quem reinou com um trono assente sobre por miséria do povo.
Um livro fantástico! Triste como a vida do heróico povo alentejano, vítima incompreendida de uma estrutura política só comparável às mais abjectas ditaduras do terceiro mundo.
Um livro que deve ser lido, relido e divulgado. Para que a memória não se apague nunca.
Imagem retirada daqui.
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