quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Daqui a Nada - Rodrigo Guedes de Carvalho

“Daqui a Nada” foi a primeira experiência literária de R. Guedes de Carvalho. Poucos saberão que antes de ser o excelente jornalista que todos conhecemos, já foi era escritor. Na verdade, este livro foi escrito em 1983, quando o escritor tinha apenas 20 anos.
Esta informação é importante porque, na verdade, o livro revela uma clara ingenuidade literária, que o próprio escritor reconhece.
Desde o início é clara a influência de A. Lobo Antunes, tanto no estilo como na temática. No entanto, o enredo demasiado simples e linear deste livro só poderia ser compensado com uma escrita genial como a de Lobo Antunes. Não é o caso, obviamente. Desde o início o autor adopta um tom melancólico, uma tristeza persistente que dá ao livro um aspecto algo monocórdico. A qualidade literária de Guedes de Carvalho está lá. Escondida, velada sob uma escrita criativa mas enfática; elaborada mas algo barroca.
Um homem, duas mulheres e uma jovem de 22 anos – juntos e terrivelmente solitários – a solidão primordial. Inexplicáveis ondas de tristeza bloqueiam a comunicação entre os personagens; poços de solidão, incapazes de amar porque não se tocam, não se conhecem.
Pedro fora feito prisioneiro em Angola, em 1971. Foi dado como morto e a esposa, Marta, acaba por envolver-se com um amigo de Pedro. Este não lhe perdoará. No seu regresso, refugia-se de Marta e da filha, Rita, envolvendo-se mais tarde com Paula, mais nova que ele. Paula é a única personagem “positiva” da estória. Mas permanece longe do centro da cena. Pedro é uma alma torturada pela guerra colonial mas as suas guerras interiores já existiam antes; talvez aquela tristeza primordial, inexplicável… talvez aquela solidão fosse a sua essência.
Mau grado a ingenuidade e o aspecto exageradamente dramático do livro, Rodrigo Guedes de Carvalho, com 20 anos, revela já uma notável sensibilidade em relação ao sofrimento humano, nomeadamente às dramáticas consequências da Guerra Colonial. Uma sensibilidade que certamente terá contribuído para que ele se guindasse à grande figura do jornalismo português que é actualmente.
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