domingo, 29 de agosto de 2010

A Casa Quieta - Rodrigo Guedes de Carvalho

Salvador tem cerca de sessenta anos, é arquitecto. A esposa, Mariana, professora, agoniza à espera da morte, com cancro. António, irmão de Salvador, doente psiquiátrico, é um ex-combatente, à beira da loucura, com trauma de guerra. O pai de ambos é o homem que segurou os cordéis dos fantoches em que transformou os filhos. Por isso, perante António, é-nos difícil perceber se o maior trauma é a guerra ou o pai.
O aspecto mais interessante desta obra é a sua estrutura, bastante original: inicia-se no presente, dirige-se para o passado e depois regressa ao presente, aquando da morte de Mariana. No entanto, fica a sensação de que Rodrigo G. de Carvalho poderia ter conseguido algo mais. Tem talento, a sua escrita é atractiva mas parece ter faltado um pouco de arrojo para construir o seu próprio estilo. As influências de A. Lobo Antunes são demasiado óbvias e o enredo aproxima-se constantemente das fronteiras do cliché.
Como magnífico jornalista que é, Guedes de Carvalho revela uma admirável capacidade de expressão que lhe permitirá certamente empreender obras mais arrojadas.
Não deixa de ser interessante neste livro a análise da figura paternal – o pai que julga resolver tudo com dinheiro e que “força” os filhos a uma carreira de sucesso e o próprio António, filho desprezado, que se transforma em pai ausente, advogado com graves problemas psiquiátricos e que se esquece de ver os filhos crescer.
Enfim, um livro que me desiludiu um pouco e que arrasta, ao longo das suas 260 páginas uma tristeza, uma melancolia profunda que não é, como em Lobo Antunes, servida por uma linguagem poética capaz de compensar esse tom lúgubre.

8 comentários:

Anónimo disse...

Já li "A casa quieta há uns anitos.Talvez logo que saiu.Lembro-me que gostei bastante.É curioso essa observação de que tem influência de Lobo Antunes, que já alguém comentou aqui neste blogue.Li há poucos dias "A memória de elefante" e gostei bastante, mas comecei a ler o último e...é difícil.Nunca tinha lido nada dele.
Enfim, dois autores completamente diferentes.
O António Lobo Antunes é diferente e único,goste-se ou não.
Um abraço
Isabel

Manuel Cardoso disse...

Isabel, eles são de facto diferentes, mas há pontos de contacto:
- Guedes de Carvalho usa, tal como ALA a técnica de multiplos narradores. Há um narrador propriamete dito e depois há vários personagens que falam na primeira pessoa (isto tem uma linguagem técnica na teoria da literatura, que eu não domino).
- Cruzamento de diferentes tempos narrativos.
- Ao nível do enredo, tal como em ALA, a obsessão da guerra colonial.
- Predominância de um certo negativismo existencial; um tom melancólico que é comum a todos os livros que li de ALA.
No entanto, o que distingue ALA é uma linguagem poética, cheia de beleza em si, independente da narrativa, que Guedes de Carvalho (ainda) não consegue.
PS- Se queres ler um livro genial, aconselho-te Ontem não te vi em Babilónia.

Anónimo disse...

Vou ler,sim.
Pode ser que depois haja alguma oportunidade de comentarmos.
Um abraço
Isabel

N. Martins disse...

As semelhanças com o ALA, como dizes, são muitas. Se calhar, por seres fã do ALA, seja difícil não fazer comparações entre os dois e não desfrutes os do RGC sem pensar no ALA. Não é culpa tua, porque a influência é assumida pelo RGC e portanto as comparações são inevitáveis.
No meu caso, lembro-me que gostei bastante do livro e gostei mais ainda do "Mulher em Branco". :)

Manuel Cardoso disse...

N. Martins, sabes que já pensei nisso? Eu próprio fiquei a recear ter feito uma apreciação menos positiva por gostar muito de ALA...
mas uma coisa é certa: é muita melancolia, não é? Não te pareceu um livro desmesuradamente triste?
Por outro lado gostava de deixar bem clara uma coisa: ser influenciado por Lobo Antunes não é desprestigio para ninguém :)
Mas vou tirar as teimas: "Mulher em Branco". Anotado.
:)

N. Martins disse...

Não disse que era desprestigiante. Apenas que as semelhanças são demasiado evidentes para que se consigam separar os dois autores, principalmente para quem segue as obras do ALA tão de perto. :) Vai ser muito difícil não leres RGC pensando nele como uma imitação do ALA. No meu caso, quando li o A Casa Quieta, só tinha lido o Manual dos Inquisidores do ALA, não tinha muita base para comparações.
É um livro muito triste, nisso tens razão. Mas olha que o Mulher em Branco, se a memória não me falha, não é menos triste... ;)

Anónimo disse...

influência não significa identidade...Confesso que adoro a forma como ALA recria a escrita, como nos deixa suspensos nas frases e nas sensações que se entranham!
Quanto ao RGC, li os livros que referem e até mesmo a peça "com os pés no arame". Curioso porque detecto uma maior obsessão pelos sentimentos humanos do que pela Guerra colonial...
Mas reconheço que a influência do ALA está bem marcada nos textos do RGC.
Ainda assim, prefiro pensar que são dois frutos distintos e que não se misturam mas regra geral são apreciados pelo mesmo grupo de pessoas.

Anónimo disse...

Estou a fazer um trabalho para a escola sobre este livro, gostaria de saber opiniões de como apresentar um livro com uma escrita tao especifica, ja que muitos de voces o leram tambem.