segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Uma Casa na Escuridão - José Luís Peixoto

Um livro negro. A história de um escritor que traz o amor e a morte no peito. E os mortos: o pai, a escrava madalena e ela – a que ele ama.
No início, o escritor era uma criança que crescia entre auto-estradas de prateleiras de livros. Pouco tempo depois é um jovem solitário. É nessa solidão que inventa, na escuridão, a mulher que ama, instalando-a na sua mente. Palavras meticulosamente escolhidas e sentidas descrevem um amor apenas sonhado. Mas o mais belo dos amores: um amor sem corpo presente. Uma paixão desmedida, interior mas feliz, rodeada de terror: um pai que agoniza, uma mãe que sofre, uma escrava assassinada com um machado na face. Sofrimentos reais. Só o amor é irreal. Só o amor é feliz; um amor que é “o sangue do sol dentro do sol”.
O pai assassinou a escrava madalena para morrer com ela. O sangue dá significado ao amor. Só a morte o perpetua.
A mão do escritor tremia e ele escrevia. Escrevia-a e lia-a. Vivia-a. Amava-a. Em Novembro havia a luz que “vinha da primavera”. Ele é um escritor lido em todo o mundo, mas é um homem só… só com ela no peito.
O livro – docemente melancólico; apaixonadamente triste, tétrico, como se escrito a lágrimas vermelhas e negras.
A escrita – Peixoto brinca com as palavras como Kandinsky com as cores, que vão do vermelho paixão ao negro morte.
O enredo – uma música suave e melancólica, mortal e cheia de vida.
E lá fora, fora do amor e da escuridão de uma casa povoada de gatos, há a morte que mais tarde irromperá portas a dentro, impiedosa e brutal; há o terror anunciado pelo príncipe de calicatri, mensageiro do amor e da morte, da amizade e do terror. E há o resto do mundo: o medo, o sofrimento e a solidão que estão por todo o lado e se juntam no peito das pessoas.
Perante o horror do mundo, o escritor começa por se refugiar em si mesmo, no amor que traz no coração e na mão que trema ao escrever.
De repente um terror surreal invade as palavras; um vento tempestuoso, avassalador, toma conta das frases. A violência mais extrema, descrita com crueldade, sem piedade do leitor (porque a compaixão não existe no mundo); corpos decepados, corações arrancados à espada, ouvidos e olhos trespassados por agulhas… o leitor, aterrorizado, não consegue não consegue parar de ler porque o sangue é tão forte como o amor.
Os soldados matam e torturam como se cumprissem uma espécie de rito trivial, um parêntesis nas suas vidas, que é igual à de todos os outros. Matam porque a vida deles é matar. Violam as escravas porque a vida deles é violar.
As páginas avançam e o sofrimento atroz ultrapassa todas as fronteiras do suportável, dando lugar ao desespero de existir. O terror incendeia as páginas, apenas interrompidas por citações da Bíbila, do Livro dos Salmos, momentos de solidão extrema… nada impedirá que matem a música, torturem e matem as crianças e decepem os escritores.
Nada impedirá a escuridão.
E depois de tanto sangue, sofrimento, terror e escuridão, é possível encontrar um final encantador neste livro? Sim. 
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