quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Caderneta de Cromos - Nuno Markl

Ora aí está, definitivamente, o livro que todos os trintões e quarentões deveriam ler. E os outros “ões”, já agora, também. Quer dizer, definitivamente não, porque será com ansiedade, com uma quase angústia que esperarei uma segunda Caderneta de Cromos, assim queira a memória do Nuno Markl.

E porque é que eu afirmo que todos os “ões” deviam ler? Porque este livro é muito mais que uma colecção de memórias. É um exemplo de vida. É uma filosofia. Quase um culto. Eu explico: estou um bocado farto de saudosistas… bem, dita assim a coisa até parece um contrasenso; estará porventura o leitor a pensar: “mas este tipo é doido ou faz-se?”. Não é o caso (ainda). Não estou é a explicar bem. Segunda tentativa: o saudosismo é uma coisa tristíssima; deprimente, mesmo, porque agarra no passado e diviniza-o. Os saudosistas passam o tempo a gemer: “ai no meu tempo é que era!”. O Nuno Markl não é assim e este livro mostra-o bem: o passado tem de ser apenas o tempo em que aconteceram coisas com piada. Mesmo coisas que possamos encarar como más mas que, com o devido toque de sentido de humor, se tornam autênticas anedotas. Por exemplo: havia brincadeiras, que o Markl aqui descreve, que eram autênticas torturas, como o jogo do alho (também conhecido como jogo da mosca) em que saltávamos desalmadamente uns para cima dos outros até que a pilha não se aguentasse; os primeiros a cair iriam depois servir de “base” à pilha seguinte. Isto é violento. Isto é sado-masoquismo. E o Nuno Markl confessa que era dos piores da escola dele a jogar isto; ou seja, levava sempre com os outros todos em cima. Pois então onde está a tal “filosofia” disto? Está na forma estóica como o autor confessa isto; como se fosse a melhor piada do mundo. E o certo é que se trata mesmo de uma bela piada: poucas coisas há de mais hilariante do que um caixa de óculos levar com uma porrada de gandulos em cima, sem dó nem piedade.

Mas os motivos para rir vão muito mais longe: desde as figurinhas tristes que todos fazíamos a jogar ao quarto escuro na vã tentativa de apalpar algo de jeito, até às batalhas de pedradas e fisgadas com que enchíamos as nossas tardes de fim de semana na aldeia.

Depois há o sempre infalível recordar das velhas marcas comerciais que atravessaram a nossa infância: as Bom-bokas com que pintávamos a cara; as canetas Bic que usávamos como canhões para expelir balas de papel previamente mastigado, as pastilhas Pirata que deviam ser fabricadas com algum derivado de petróleo misturado com cimento e açúcar, os Estrumfes, o Cubo mágico, etc etc. Enfim, um elenco de heróis míticos da nossa infância onde não falta, obviamente, o José Cid, o Sandokan, os Cinco, a Abelha Maia e até esse autêntico manual de iniciação sexual para adolescentes solitários que era a revista Gina.

Este livro só vem reforçar uma convicção que tenho há muito tempo: a de que o Nuno Markl, quando nasceu não chorou; riu. O diacho do homem não diz nem escreve nada que não me ponha a rir. E esta é ou não uma grande filosofia de vida?

Bem haja, pois, o homem que mordeu o cão e venha de lá a segunda caderneta.
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