quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Morreste-me - José Luís Peixoto

Escrito como quem reza, sentido como uma oração, lido e sofrido com uma lágrima hesitante, Morreste-me é uma pequena e bela obra de arte. Bela e triste. Isto leva-me a pensar numa velha questão de filosófica: “pode a beleza ser triste”? Pode, digo eu. Talvez a beleza não esteja na coisa em si, neste caso na escrita, mas no admirável espelho da nossa alma. Um sentimento, uma dor de alma, um sofrimento atroz, são coisas belas quando, admirados, sentimos o nosso próprio espírito abalado. Talvez a arte seja tudo aquilo que mexe connosco. É nesse sentido que Morreste-me é uma belíssima obra de arte.
As palavras de J. L. Peixoto não são feitas de letras. São desenhadas com os átomos da tristeza. São partículas de dor que se juntam para formar dores de alma que irrompem destas páginas e nos invadem o espírito sem piedade.
Peixoto é um génio. Porque escreve bem? Não. Muitos escrevem bem. Mas poucos conseguem escrever a alma. E muito poucos conseguem escrever na alma do leitor. Peixoto invade-a; toma-a de assalto; escraviza-a e tortura-a. Ao ler esta tristeza, o leitor maravilha-se com a própria dor. Como será isto possível? Que estranho prazer é este de sofrer? Ou será apenas a beleza em tons de negro? Expor a dor, partilhá-la com o leitor, mergulhar na escuridão para depois a transportar até quem lê, será essa a beleza destas palavras?
Seja como for, ler Peixoto não é apenas um exercício estético. É descobrir a beleza da escuridão, da dor mais atroz; mas é também vivê-la e revivê-la porque este livro não pode ler-se apenas uma vez.

8 comentários:

relogio.de.corda disse...

Ando de olho neste autor... provavelmente um dos próximos autores a ser lido. Obrigada pela sugestão de leitura.

tonsdeazul disse...

Hum... Estou a ver que andas a descobrir a obra de Peixoto antes da chegado do novo que se avizinha, Manuel! ;)
Este livro de Peixoto é dedicado ao seu pai morto e sim nele o autor espelha a sua dor e também a dor que é nossa. Um livro que carrega essa enorme dor e uma profunda tristeza, mas como bem referes não deixa de concentrar nele uma enorme beleza!
O meu é da editora anterior, Temas & Debates, e é quadrado, mas esta capa também é lindíssima!

Anónimo disse...

Li este livro há anos,quando saiu, e voltei a lê-lo quando morreu o meu pai.Não encontrei nele o consolo que esperava,mas é um belo texto.Escrito com alma.
Isabel

Dulce disse...

Olá Manuel,
Estas ferias li "o cemiterio dos pianos" de José Luis Peixoto, e fiquei simplesmente "apaixonada" pela sua escrita.
Morreste-me é a minha proxima aquisição, a minha próxima leitura.
Gostei muito do seu blog.
Boas leituras,
Dulce Barbosa

Manuel Cardoso disse...

Olá Dulce
o "Cemitério de Pianos" é, na minha opinião, um dos melhores livros portugueses dos ultimos anos. Um livro fantástico.
beijinhos

Anónimo disse...

hoje estive a ver o jose a falar com o goucha adorei quando o goucha leu "menti te quando coloquei as minhas maos em teus ombros...." acho este escritor uma incognita gostava mto de ler os livros todos dele adorei a entrevista achei o jose um jovem cheio de alma de escritor abracos

Manuel Cardoso disse...

Pode crer, caro anónimo, que JL Peixoto é um grande escritor. Mais que isso, é um grande homem. Revela uma sensibilidade única, que é bem visível neste livro; nada que se compare com esses escritores sorumbáticos, chatos e infelizes como esse que está agora na moda (não sei porquê) chamado Gonçalo Tavares.
Vela a pena ler e reler JL Peixoto.

Til disse...

Este livro é uma definição de arte!