quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Conjura - José Eduardo Agualusa

Até ler este livro só conhecia Agualusa desse fantástico “Barroco Tropical”. Este livro, no entanto, é completamente diferente. O enredo decorre entre finais do século XIX e inícios do século XX, até à proclamação da República em Portugal. Tudo se passa em Luanda, entre a comunidade lusa na capital de Angola, em contraste com a gente humilde nativa.
Estávamos no tempo de uma nova vaga de colonização em que, após o fim da escravatura se procurava explorar nas colónias as matérias primas para as indústrias nascentes. Esta corrida às colónias levara a intensas disputas entre as nações europeias e Portugal deparava-se com as exigências de supremacia britânica. N Conferência de Berlim, onde as fronteiras das colónias africanas foram traçadas a régua e esquadro, Portugal foi praticamente humilhado pelos ingleses que não aceitaram a proposta portuguesa, o famoso “mapa cor-de-rosa” em que exigíamos a posse de todos os territórios entre Angola e Moçambique.
Perante isto, a colónia portuguesa em Angola começa a desacreditar a própria monarquia e surgem as primeiras vozes republicanas e independentistas.
Angola era, naquele tempo a colónia onde Portugal “despejava” muitos dos seus condenados ao degredo, que acabavam por se misturar com a população nativa. A prática do degredo era mais uma expressão do desprezo com que eram encaradas as colónias; Portugal era já visto como o colonizador injusto e explorador, tanto pelos negros como por parte da elite branca luandense. O governo de Lisboa, não raras vezes, incentivava mesmo o racismo, procurando convencer esta elite da inferioridade do negro, encarando-o como um inimigo.
Esta análise histórica de Agualusa aborda um lado do colonialismo que, a meu ver, tem sido algo depreciado pelos historiadores: as relações entre os administradores brancos e a população nativa, em confronto com as decisões e recomendações do governo central. Estes brancos de Luanda encontravam-se sempre a meio caminho entre os dois pólos, umas vezes seguindo a agradável posição do poder outras vezes aliando-se aos nativos na defesa da autonomia que também desejavam. A nação fomentava o nacionalismo; no entanto, muitos deles já se sentiam mais angolanos que portugueses. Era este o drama de quem tinha tanto a ganhar como a perder: arriscar um dos lados era uma tentação. Mas também um perigo. Se os angolanos lutavam pela autonomia que lhes sorria como uma bela perspectiva de libertação, por outro lado Lisboa oferecia um certo ideal de civilização que imitavam nos costumes e lhes prometia a eternização do poder.
Quando o comerciante Carmo Ferreira pretende casar com a bela negra Josefina, vem, ao de cima todo o preconceito racista que deixava esta elite a meio caminho entre o progresso e o obscurantismo; entre a liberdade que a República prometia e o racismo empedernido.
Mas o escritor e zoófilo Severino, um mulato, não desiste da sua luta. Ele sonha com a independência e luta por ela. Ele compreende como ninguém o espírito de Angola. Pelo contrário, os brancos de Angola não queriam uma verdadeira independência; queriam Angola independente mas governada por portugueses.
Pelo meio surgem as primeiras catástrofes: as primeiras matanças da luta pela libertação; o surgir de um movimento pela liberdade que viria a durar quase um século e milhares de mártires.
Em suma, uma obra que vale pelo testemunho de uma época de charneira na história do povo angolano; uma análise histórica interessante, envolvida numa ficção que torna a leitura agradável e fluida.

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