quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Kikia Matcho - Filinto de Barros

Kikia Matcho pode ser traduzido do crioulo como “Mocho Macho”, um animal símbolo da desventura, da desgraça.
Este livro surpreendente, de um escritor guineense pouco conhecido entre nós, fala-nos, numa liguagem simples, do povo simples da Guiné, de um recém-licenciado na Europa, Benaf, que regressa à Guiné aquando da morte de um tio, ex-combatente. Fala-nos também de Papai, outro ex-combatente; ele é a voz da saudade e do lamento; da tradição e do desengano.
A narrativa lentamente se transforma numa profunda reflexão sobre as consequências da guerra colonial e as desilusões que se seguiram. No fundo trata-se simplesmente de dar conta da miséria de um povo escravizado por antigos e novos colonizadores; os “tugas” mas também os novos senhores, porta-vozes de um sistema político que depressa esqueceu o povo. Um povo que foi vítima da História, ou dos homens que a fizeram.
A luta contra o “tuga”, o português colonizador tinha unido os povos africanos. Guineenses e cabo-verdianos juntos no PAIGC de Amílcar Cabral, tinham no inimigo comum um traço de união. No entanto, a independência trouxe a desunião; começara o assalto ao poder!
Neste livro é bem patente o lamento perante a nova realidade da Guiné: o poder político desprezou os combatentes e a nova geração esqueceu a Luta e os seus heróis.
Por outro lado, a desilusão perante Portugal: os novos democratas de Lisboa convidam os africanos a emigrar para depois os instalarem em bairros de lata, sem condições de trabalho, condenados à miséria e à criminalidade.
Na Guiné, entretanto, o povo vai tentando esquecer estas desgraças do “progresso”; o saber tradicional, a cultura do povo guineense é misturada com novas influências e despersonalizada; as tradições são consideradas pelos novos como superstição; é o caso do jovem licenciado Benaf, que não compreende a alma africana porque se ausentou dela e se aculturou perante o “branco”.
Em suma, trata-se de uma leitura agradável e muito importante para compreender o fenómeno da descolonização e dos problemas por que passam os países lusófonos de África. É a visão do africano perante as desgraças que a colonização e a descolonização precipitada provocaram. Para nós, portugueses, esta crua realidade que Filinto de Barros descreve é e será ainda uma ferida aberta na consciência portuguesa e europeia.

8 comentários:

tonsdeazul disse...

Mais uma boa opinião sobre este livro e eu que não o comprei! :(
Tenho de ver se o arranjo por empréstimo. :)

Manuel já li "A Terceira Rosa", de Manuel Alegre. Obrigada pela sugestão. Realmente tem uma história bem bonita, com toque poético!

N. Martins disse...

O Filinto Barros toca bem essa "ferida aberta" nas nossas consciências. A ideia que muitas vezes se quer fazer passar que, como colonizador, Portugal era um exemplo a seguir, nem sempre correspondeu à verdade. Gostei disso no livro mas também porque ele é extremamente imparcial. Não é um ataque ao ex-colonizador mas antes a constatação de factos, quer sejam contra Portugal, quer sejam contra a Guiné.
Aprendi muito com este pequeno livro. Ainda bem que gostaste. :)

Laura de Sá Morais disse...

Não li mas conheço muito bem... Uma colega minha apresentou-o na aula de Literaturas de Língua Portuguesa!

Regina disse...

Bem que queria ler, mas não encontro nem em sebo. Se me emprestar tem garantia de devolução rápida e em perfeitas condições.

Manuel Cardoso disse...

Olá Regina
emprestei este livro mas devo tê-lo de volta daqui a algum tempo. Nessa altura combinamos o empréstimo

Anónimo disse...

Acabei de ler o livro e só tenho uma palavra: Maravilhoso! Obrigada pela sua excelente análise que prolonga o prazer da nossa leitura.

blog da águia disse...

Estou procurando este livro há mais de dois anos e não consigo. Se puderem possibilitar o acesso serei eternamente grata.

Manuel Cardoso disse...

Já várias pessoas me pediram este livro. Emprestei o meu exemplar há dois ou três anos e nunca mais me foi devolvido...