quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O Físico - Noah Gordon

Pouco tempo depois do ano 1000, em Londres, a infância de Rob é verdadeiramente catastrófica: o pai morre de doença e a mãe num parto. Os filhos, pequenos, são entregues a estranhos e separa-se uns dos outros.
Rob J. é aceite como ajudante de um barbeiro, ele também saído de uma infância desgraçada (pais mortos pelos Vikings num contexto de guerra atroz entre ingleses, Vikings e Dinamarqueses, em finais do séc. X).
Como ajudante de barbeiro começa a adaptar-se à vida de cirurgião ambulante com apenas 9 anos. O barbeiro revela-se um excelente educador, castigando duramente em caso extrema mas usando também o elogio como forma de fazer progredir o rapaz. Mostra-se amigo e justo.
Rob J. vai-se tornando malabarista para atrair os clientes. Revela grandes talentos; acima de tudo uma imensa capacidade de aprendizagem.
Depois revela-se o “dom” – sentir a morte nas mãos dos pacientes: uma mistura curiosa de superstição, sensibilidade e intuição. Na ausência do conhecimento cientifico são estas as alternativas na Europa Medieval, mergulhada cada vez mais num conservadorismo católico que fomenta a ignorância e a superstição.
A Inglaterra tinha acabado se sair de uma fase de invasões sucessivas e reinados ruinosos. A época era de miséria mas também de esperança: o novo século, acompanhando o novo milénio, seria o momento do arranque da Inglaterra como potência europeia. O enredo situa-se exactamente nesse importantíssimo ponto de viragem que foi o reinado de Canuto, aquele que lançou as bases da modernização agrícola inglesa.
O instinto de violência e o próprio prazer que esta por vezes envolvia era algo perfeitamente aceite na sociedade, ao contrário do que se passa hoje: o culto da violência persiste nos nossos tempos mas é camuflado. No século XI, pelo contrário, as lutas, de homens ou de animais, eram os espectáculos mais apreciados, em todas as classes sociais.
Após a morte do barbeiro, Rob segue um físico judeu e estabelece o seu grande objectivo de vida: tornar-se físico. É imediatamente atraído pela grande sabedoria e tradição judaica na medicina; os judeus eram, de facto, os melhores.
É com os judeus que Rob empreende a grande viagem, atravessando a Europa e o Médio Oriente. É nessa viagem que conhece Mary, com quem viria a casar.
O médico judeu fala-lhe do grande Avicena e da escola médica do oriente, dos muçulmanos. Rob começa a ver a ciência como algo que une os homens, ao contrário da religião. Cristãos, judeus e mouros odeiam-se mutuamente; mas a ciência é a mesma.
[Parêntesis curioso: um judeu descrevendo os camelos - “longas pestanas que lhe davam uma estranha aparência feminina J.]
Toda a obra revela uma valoração muito positiva dos judeus: puristas nos costumes e tradições, fiéis às leis religiosas, solidários, honestos. Das 3 religiões descritas, só nesta os preceitos são rigorosamente cumpridos. Será mesmo assim ou estaremos perante uma visão subjectiva do escritor? Os judeus não pecam? Não cedem às tentações da violência, do sexo e do egoísmo?
Por exemplo em relação aos cruzados (guerreiros cristãos) a descrição é nua e crua: bêbados, violadores e ladrões.
No entanto, realce-se a convivência pacífica entre judeus e muçulmanos (quando Rob é já aprendiz de físico na Pérsia). Se observarmos o que se passa hoje só podemos chegar a uma triste conclusão: foi a política que os desuniu.
Já na Pérsia Rob testemunha os rigores da religião muçulmana; disfarçado de judeu, ele observa costumes violentos, castigos terrivelmente severos destinados a garantir o funcionamento do sistema social. Ou apenas culto da violência? Ontem como hoje…
Durante a estadia na Pérsia Rob depara com a peste; a mesma peste bubónica que devassou a Europa medieval. Perante o perigo declarado de contágio, é extraordinário como as pessoas de dispunham a acompanhar os moribundos, sem medo da morte. Mas é esta a realidade histórica: a morte era algo familiar, algo comum que as pessoas temiam muito menos que hoje.
Um dos momentos altos do livro: um homem agoniza com peste. Três estudantes de medicina rezam. Um, cristão, reza a Jesus; outro, hebreu, reja a Iavé; outro, muçulmano, reza a Alá. O homem cura-se. Os três estudantes dão graças. Cada qual ao seu Deus.
Mais adiante no livro, um outro exemplo magnífico de tolerância religiosa: o judeu Mirdin, amigo de Rob, explica que as diferentes religiões são como diferentes pontes para atravessar um rio que separa os homens de Deus. Se alcançarmos Deus, será importante saber por que ponte passámos?
A história de Rob é um verdadeiro hino ao conhecimento científico. Por exemplo: todas as religiões proíbem a dissecação de cadáveres mas Rob não hesitará em fazê-las. É o triunfo do saber sobre a superstição. É com esse “crime religioso” que Rob desvenda o enigma da terrível e mortal “dor do lado direito”: aquilo a que hoje chamamos apendicite. Outro exemplo: Rob descobre que o álcool é mais eficaz que os óleos para desinfectar ferimentos, ao contrário do que diziam os mestres tradicionais.
Mas, para além do elogio da ciência há também nesta obra um claro elogio do amor: só ele é capaz de despertar uma coragem a toda a prova, como casa com uma cristã, disfarçado de judeu, numa terra de muçulmanos; um exemplo curioso é o descaramento com que Rob pratica o Kama Sutra com a esposa do grande Mestre dos Físicos, correndo risco de morte perante a implacável justiça religiosa.
Em suma, uma obra magnífica, muito rigorosa em relação aos factos históricos como a escola médica de Ibn Sina (conhecido no mundo cristão como Avicena, o maior médico do antiguidade). Milhares de páginas terá lido o autor para escrever este livro! Um livro que merece ser lido e relido, tal é a riqueza e o encanto das narrativas e tão eloquente é o elogio da ciência, da tolerância entre povos e do amor.
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