quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Da mão para a boca - Paul Auster

Depois de ler quase toda a obra ficcional de Paul Auster, é curioso ler pela primeira vez um livro autobiográfico como este “Da Mão Para a Boca”. Quando escreveu este livro (1996), Auster já era a estrela que é hoje mas relata a sua juventude e as primeiras e penosas experiências literárias. Depois de sair de casa dos pais, ainda muito jovem, Auster foi marinheiro, argumentista de cinema, tradutor, dramaturgo de peças mal sucedidas, empregado de vários serviços mal pagos, etc. desesperado com a falta de dinheiro para sobreviver (ele e a família) chegou a encarar a hipótese de fazer criação de minhocas na cave de casa, tentou sem sucesso escrever folhetins pornográficos e tentou desesperadamente vender um complexo jogo de cartas em que tentava imitar um jogo de basebol. O seu primeiro livro (policial) foi um fracasso mas acabou por lhe render uma pequena quantia que lhe possibilitou lançar-se nas verdadeiras aventuras literárias. Acabou por encontrar o sucesso no momento em que se encontrava à beira do desespero total, curiosamente após a morte do pai. Foi nessa altura que escreveu o brilhante “Inventar a Solidão” e a genial “Trilogia de Nova Iorque”. Auster termina este livro neste ponto da sua vida, com a frase “Chegava de escrever livros por dinheiro. Chegava de me vender”. Tinha na altura cerca de 32 anos.
Regressando a este livro, podemos concluir que Auster foi sempre um homem à procura da sua identidade. Nesta fase da sua vida revela-se um aventureiro, mergulhado na incerteza e no limite do desespero. A literatura, como todas as artes, constrói uma reduzida elite de super-estrelas, milionários famosos como hoje é Auster em contraste com uma miríade de “proletários da escrita”, como ele próprio foi durante tantos anos. Estes limitam-se a trabalhar para sobreviver, como qualquer operário mal pago. Entre os escolhidos pela fortuna e estes trabalhadores da escrita (os que escrevem “da mão para a boca”) há um fosso enorme. Auster conhece os dois lados.
Para quem conhece a obra de Auster é fascinante descobrir neste livro que as características típicas da maioria dos seus personagens principais não são mais que as características da personalidade do próprio Auster: ambicioso mas generoso, aventureiro, crítico, desprendido, sonhador, livre mas, acima de tudo, detentor de uma sensibilidade humana peculiar, um lado humano e solidário que se sobrepõe a todas as ambições e objectivos materiais.
Este humanismo é, a meu ver, a qualidade maior de Auster como escritor e como ser humano.
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