segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A Sul. O Sombreiro - Pepetela

Pepetela regressa em grande. Este é talvez o trabalho mais elaborado e mais bem conseguido do magnífico escritor angolano que é já um motivo de orgulho da literatura que tem por pátria a Língua Portuguesa.
Livro de aventuras, ou romance histórico, ou as duas ou nenhuma das duas coisas, esta é uma obra de grande fôlego, num contexto inovador, penso que nunca antes “navegado”: Angola, no início do século XVII, quando era apenas um lugar na costa, uma colónia desprezada, mero entreposto de escravos caçados e comprados, destinado ao desumano trabalho da cultura do açúcar no Brasil, essa sim, a colónia de todos os sonhos. No entanto, era o sangue, o suor e a desgraça dos nativos de Angola que alimentavam a terra dos sonhos do outro lado do Atlântico. E Benguela, o sombreiro do sul, um sonho ainda mais vago.
Nesta obra, Pepetela leva-nos ao encontro do mundo misterioso das tribos africanas, nas suas rivalidades ancestrais, na sua luta pela sobrevivência mas também no encanto das suas tradições, dominadas por uma espécie de irmandade com a natureza que o branco nunca compreendeu nem quis compreender.
Aqui se fala dos terríveis jacas, guerreiros canibais, dos jogos de poder que envolviam os reinos do Kongo e do Ndongo, ora aliados ora rivais, conforme as conveniências e as manobras dos colonizadores.
Mas estes colonizadores estavam longe de ser agentes “civilizacionais”. Não eram mais que desterrados, condenados e refugiados, a verdadeira ralé da sociedade portuguesa. Para eles, Angola era apenas último lugar onde poderiam obter poder e dinheiro. Era assim também com o governador Cerveira, personagem central do livro: homem sem escrúpulos, impiedoso, cruel, egoísta. Para fazer fortuna não se olhava a meios; os sobas locais eram vítimas de uma estratégia traiçoeira que incentivava as lutas internas para delas obter escravos baratos ou outras fontes de riqueza. Neste sentido, esta obra é também um testemunho de como se perdeu o Império; de como se destruíram ideais de civilização que algumas mentes ingénuas alimentaram durante séculos.
E a Igreja Católica observava impávida este triste espectáculo. Impávida não… sempre se procurava tirar proveitos: neste livro, Jesuítas e Franciscanos transportam para África as suas ambições de poder e de fortuna e nem eles escapam à mesquinhez da ambição material.
A escravatura era a grande fonte de fortunas e por isso civilizar e desenvolver os negros era considerado perigoso! A política oficial considerava que qualquer desenvolvimento técnico, cultural ou até económico dos indígenas poderia colocar em perigo o medo que os portugueses deviam inspirar!
Enfim, trata-se de um livro poderoso! Um livro que nos diverte e emociona mas também uma obra que nos dá a conhecer um mundo ao mesmo tempo encantador e tenebroso. Um livro que me deixará por muito tempo na memória o encanto do amor entre o “europeizado” Carlos Rocha e a encantadora indígena Kandalu. Um amor que é um choque de culturas mas onde a natureza funciona como semente de eternidade.
Avaliação pessoal: 9/10
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