terça-feira, 27 de março de 2012

Ensaio sobre a Lucidez - José Saramago


Este Ensaio sobre a Lucidez foi escrito na sequência do Ensaio sobre a Cegueira que deu origem a um belíssimo filme do Fernando Meireles. Aqui, ao contrário do ensaio anterior, o povo tem um súbito ataque de lucidez, atingindo 85 % de votos em branco numas eleições municipais, na capital do país, de forma absolutamente inexplicável.
A qualidade literária da escrita de Saramago é impressionante: a fluidez da escrita, a forma simples como nos descreve as situações, o finíssimo sentido de humor que nos “prega” o sorriso nos lábios, enfim, uma envolvência que nos faz agarrar o livro até ao fim, que nos deixa desiludidos sempre que temos de pôr o livro de lado, ainda que provisoriamente. O que pode haver de mais sublime num, livro está aqui bem presente: o prazer com que se lê.
Basicamente, este livro é uma crítica à democracia. O governo, estranhando uma votação maciça nos “brancos” resolve investigar. Ou melhor, espiar. A liberdade dos cidadãos vai assim sendo coartada; todos são suspeitos. Afinal de contas, pressupunha-se que o voto legitimasse o poder e alimentasse a “besta”. Mas assim não aconteceu. Num tempo em que não havia facebook, não foram necessárias SMS nem marchas de indignados; o povo, como que iluminado, manifestou assim o seu descontentamento.
Mas as coisas não podiam ficar assim. O primeiro ministro, aos poucos, foi aproveitando o fenómeno para apertar o cerco ao povo da capital. Declarou o estado de sítio, interrogou os cidadãos; recorreu a prisões; ameaçou, perseguiu, prendeu e não hesitou até chegar às medidas mais extremas. Tudo porque o povo não foi fiel.
Neste livro, ao contrário do anterior, a cegueira parece atingir apenas os homens do poder. Mesmo assim há exceções: o presidente da camara coloca-se do lado do seu povo e por ele sacrifica a sua carreira política. Mau grado o humor que se espalha por todo o livro, há um tom pessimista apenas quebrado por alguns momentos e este é um deles.
A tirania da democracia representativa vai crescendo ao longo do livro, atingindo píncaros quase apocalípticos. Alguns traços de esperança, de crença no futuro, manifestam-se na atitude de alguns personagens, como que reafirmando que, como diria Manuel Alegre, “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. Mas o final do livro desmente qualquer visão positiva da realidade; afinal o povo resiste mas o poder persiste.
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