domingo, 4 de março de 2012

As Rosas de Atacama - Luís Sepúlveda


Que Luís Sepúlveda é um homem de causas já todos nós sabemos. Nem é preciso ter lido qualquer livro dele; Sepúlveda é reconhecido internacionalmente como um dos mais activos e acérrimos defensores das causas ecológicas. A defesa do planeta face à inclemente devastação causada pelos avanços do capitalismo selvagem em que vivemos, é a sua causa de eleição. Mas o que cada livro dele revela sempre com enfase cada vez mais vincado é a sua tremenda sensibilidade humana. Pessoalmente sinto-me sempre surpreendido em cada leitura que faço deste autor, pela sua capacidade quase única de descrever e apontar o dedo a todas as injustiças de que são vítimas os seres humanos mais desprotegidos.
Neste livro, publicado pela primeira vez em 2000 e, estranhamente, só agora publicado em Portugal, Luís Sepúlveda dá-nos conta de uma espécie de diário de viagens. Um pouco por todo o mundo, o autor testemunha diversas situações de injustiça mas relata-nos também episódios de beleza irresistível; na verdade, sendo um homem de causas, ele não se limita a relatar situações negativas. Por outras palavras, não é um livro de lamentos; por vezes presenteia-nos com descrições encantadoras como as das paisagens da Lapónia ou da Patagónia.
Um episódio que revela bem a sensibilidade humana deste genial escritor chileno é um episódio que se refere ao famoso mármore de Carrara. Este é considerado o melhor mármore do mundo e das suas pedreiras foram extraídos os blocos que originaram as obras primas de Miguel Ângelo, como o Moisés ou David. No entanto, nessas pedreiras de mármore brilhante
“a região de Carrara cobra entre seis a oito vidas de cavatori por ano. Durante o funeral, o único artista presente disse que aqueles dois cavatori eram mártires que tinham morrido pela arte. Mas outro daqueles trabalhadores cuspiu o charuto barato que lhe pendia dos lábios e precisou: não, morreram porque falta segurança, morreram por um salário de merda.”

7 comentários:

AC disse...

Também sou fã de Luís Sepúlveda. Curiosamente, ao fazer a divulgação que faz da Patagónia, o escritor contribui, e de que maneira, para uma corrida de turistas para essa região, iniciando a descaracterização da zona. No mínimo polémico, não é?

Abraço

Manuel Cardoso disse...

realmente... isso dá que pensar.
Mas o turismo não tem de ser necessariamente mau; tem é de ser controlado e se calhar o problema é o tal "turismo selvagem". Ou interesseiro, o que é pior ainda.
Por exemplo, na zona do Amazonas o tráfico de animais tem sido um flagelo terrível. Mas tentar impedir as visitas turísticas será razoável?

Teté disse...

Esse tenho para ler, mas ainda não li, embora seja igualmente fã de Sepúlveda. Mas a minha edição (3ª) já é de 2001... ;)

Manuel Cardoso disse...

Teté, tens uma edição portuguesa de 2001?

Manuel Cardoso disse...

Já vi que me enganei. Este exemplar que tenho é da Porto Editora 2011 mas há uma edição muito anterior da Asa

tonsdeazul disse...

Gosto imenso desta obra de Sepúlveda, muito embora não seja o meu preferido.
A minha edição também é antiga, deve ser igual à da Teté. É das edições ASA.

Manuel Cardoso disse...

Olá tonsdeazul
eu também continuo a pensar que o melhor dele é o primeiro que li: O Velho que Lia Romances de Amor.