segunda-feira, 12 de março de 2012

1Q84 vol.1 - Haruki Murakami


O maior critério para avaliar um livro é o prazer que a leitura proporciona. É por isso que adoro os livros de Murakami; dão-me um gozo tremendo. Ora este 1Q84, volume 1, está, na minha escala de prazer apenas um pouquinho abaixo do inesquecível Kafka À Beira Mar.
Uma das maiores qualidades deste escritor é a capacidade de criar enigmas. Elementos dispersos, misturados no enredo, dão um constante tom de suspense à obra, como se fossem os grãos de milho que, no conto infantil, indicam o caminho para casa. Em Murakami, esses grãos indicam o caminho do mistério; mas são colocados com esmero, com mil cuidados ao longo da narrativa para que o prazer de ler atinja os píncaros.
Tais enigmas emergem do enredo de uma forma tão natural que o leitor os integra na realidade da narrativa, como se a fantasia se tornasse real, como se o surreal se tornasse concreto. O mistério passa assim a ser abordado com uma naturalidade tal que a mente do leitor vai construindo um todo onde deixa de ser possível desligar a fantasia da realidade. É este o mundo misterioso e encantado de Murakami.
Nesta obra há um elemento de mistério acrescido: há duas estórias paralelas e o autor vai introduzindo ténues pontos de contacto entre as vidas de Aomame, a assassina e Tengo, o escritor. E os pontos de contacto vão crescendo, emergindo envoltos em mistério a partir de meados do livro.
Alguns personagens de Murakami são, aos olhos do leitor comum verdadeiramente excêntricos. No entanto é esta excentricidade que torna a obra tão peculiar: não é uma excentricidade irreal, não é apenas fantasia, é um comportamento peculiar mas explicável pelas regras da lógica. Para o leitor, estas personagens são como diz Aomame: “não me considero excêntrica. Sou apenas honesta comigo própria”. Talvez no mundo atual ser honesto seja sinónimo de excentricidade…
Um dos aspetos mais curiosos deste livro é um erotismo constante e latente. É o mundo dos sentidos na tradição oriental, perfeitamente integrado na vida. E, como sempre na obra de MUrakami, a música. É uma obra musical, a Sinfonietta de Janäcek a principal ponte entre as duas narrativas e o ponto fulcral do enredo.
Os comportamentos excêntricos, como os aparentemente estranhos assassinatos do Aomame são explicados numa linha freudiana – Murakami atribui ao passado dos personagens a responsabilidade pelas linhas de força que evidenciam nas suas vidas.
Neste livro, mais do que nos anteriores, Murakami deixa bem clara a sua visão crítica face à influência das religiões instituídas na vida das pessoas. Estas, ansiosas por compreender os grandes dilemas da vida e perdidas num mundo capitalista sem ética, cada vez mais oco de valores fundamentais, procuram explicações na religião. No entanto, como reconhecia o personagem de Steinbeck, a religião já não explica nada! E, pior ainda, alimenta-se precisamente dessa sede de compreensão. Nesse sentido, a história da humanidade parece ser um longo caminho para a cegueira total: daí o revivalismo do 1984 de G. Orwell. Talvez a solução seja, como diz Fuka-Eri, “caminhar por sítios afastados da estrada” como os habitantes da ilha Sacalina, que continuaram a usar os trilhos da floresta considerando inútil a estrada construída pelos “civilizados”…
Talvez todos nós precisemos de caminhar um pouco mais por fora da estrada…
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