quinta-feira, 1 de março de 2012

A Cruz de Esmeraldas - Cristina Torrão


Levantado do Chão de José Saramago e Vagão J de Vergílio Ferreira foram livros que me marcaram. Porquê? Pela sua singeleza, pelo encanto que é recuar às origens de um génio; da mesma forma, a leitura deste livro de Cristina Torrão, que marca o arranque da sua carreira literária, é uma experiência interessante. Nele a autora revela já a sua qualidade literária enquanto grande contadora de histórias e, ao mesmo tempo, uma certa ingenuidade na abordagem dos comportamentos. Mais do que nos livros posteriores é clara a visão positiva da alma humana, a crença inabalável na bondade rousseauniana do ser humano.
O cruzado Konrad participa no cerco e conquista de Lisboa ao serviço do nosso pai-rei Afonso. Konrad vem das profundezas da Germânia para ganhar a salvação da alma e a riqueza da bolsa (mais esta que aquela, obviamente) lutando contra os mouros. Do almejado saque faria fortuna mas mais importante que isso: de entre os despojos da conquista ergueu-se Aischa, a moura “encantada”, a beleza em pessoa que enfeitiçou o Cruzado. Por amor Konrad se fixou em Portugal por amor se dispôs mesmo a renegar a sua fé. E a misteriosa cruz de esmeraldas que Aischa guardava seria também a guardiã dessa bela estória de amor.
Emana deste pequeno romance o perfume de um humanismo notável. Já neste primeiro livro, Cristina Torrão faz a apologia de uma convivência pacífica entre cristãos, mouros e também judeus, em torno de uma espécie de panteísmo, como se o Deus de todos os povos fosse um e único. Neste contexto, quebram-se alguns dogmas: Samuel é um judeu altruísta; Konrad é um católico tolerante e Rashid é um muçulmano sem preconceitos: as antíteses do vulgar para a época.
Este sonho de convivência pacífica entre povos e culturas revela uma sensibilidade e um humanismo que a escritora deixa bem claros em todos os seus livros.
Um aspecto curioso desta obra é o seu carácter didáctico: que proveitoso seria se este livro fosse lido por todos os estudantes de história. A linguagem utilizada torna-o acessível a qualquer grau do ensino  e a beleza com que a ficção adorna a verdade histórica torna este livro muito atractivo e de fácil leitura.
Sem a profundidade na análise psicológica de Afonso Henriques e de D. Dinis, este livro é precioso para conhecermos as principais facetas desta autora que se destaca claramente no romance histórico português. 
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