sábado, 24 de março de 2012

Pela estrada Fora - Jack Kerouac


Esta dimensão de contrapoder é algo que me fascina na literatura norte-americana, dimensão essa que podemos facilmente identificar em três momentos históricos bem definidos: antes da segunda guerra mundial, a famosa geração perdida que nos legou nomes como John Steinbeck, Scott Fitzgerald ou Ernest Emingway. Depois, após esse tremendo abalo que a humanidade sofreu, a Segunda Guerra Mundial, surge-nos esta geração Beat, ou Beatnik, um tremendo grito de revolta em que se insere Jack Kerouac, assim como outros nomes sonantes, tais como William Borroughs e Allen Ginsberg. E como terceiro episodio do contra poder literário americano, destaca-se na atualidade nomes tão geniais como Paul Auster e Phillip Roth.
Não há dúvidas que a literatura americana é verdadeiramente contestatária e este livro de Kerouac é um autêntico marco histórico no processo. Pela Estrada Fora transformou-se num verdadeiro hino da geração Beatnick pela forma despretensiosa, descontraída e rebelde com que o autor encarou a escrita.
Neste livro não há uma estória ou um enredo no sentido tradicional do termo; há uma descrição “ao correr da pena” de uma vida errante e fascinante, a de Dean Moriaty, o amigo que encaminha Sal, alter-ego do autor, pelas viagens loucas que empreendera pelos EUA e México no final dos anos quarenta.
Trata-se de um livro errante, sobre gente errante; gente que desacreditou do destino cor de rosa que o mundo do plano Marshall prometia. Se, por um lado, era de esperança o futuro de um mundo livre do pesadelo nazi e cheia de vontade de ver crescer o capitalismo triunfante, por outro lado, crescia a dúvida sobre uma sociedade cada vez mais alienada pelos valores materiais.
É neste contexto que o movimento Beat surgia como um grito de revolta, uma voz de liberdade pessoal mas nunca desprovida do sentido solidário que a vida moderna parecia querer desprezar. 
Por outro lado, o hedonismo como única via de resposta à alienação da sociedade capitalista; um hedonismo que, contraditoriamente, conduz à alienação pelas drogas e pelo álcool. No entanto, este hedonismo é também a expressão da liberdade e da honestidade perante a vida. Dean Moriaty conduz a alta velocidade, de troco nu: de peito aberto face ao futuro e à sociedade; mas toda a vida de Dean é conduzida, também, pela generosidade de uma vida em que o mal, o ódio e o egoísmo não existem.
São estes valores de liberdade e solidariedade que viriam a dar origem ao movimento Hippie. E Kerouac, com este livro, teve uma importante palavra a dizer no processo.
Enfim, um livro que se lê de forma agradável. Em que são descritas as viagens de Sal, Dean e seus amigos pelos EUA do pós-guerra, mas também viagens num outro sentido: pelos mundos alternativos da droga e do álcool como elementos de libertação. Um livro perturbador mas, acima de tudo, um grande marco histórico na literatura do século XX.
Curiosamente, anunciou-se há pouco tempo uma adaptação ao cinema deste livro: On de Road, no seu original. O filme promete, com a realização de Walter Salles, que fez um trabalho magnífico em Diários de Che Guevara.
Podem ver o trailler aqui:
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