sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Jangada de Pedra - José Saramago


«Em A Jangada de Pedra (...) o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.» (Real Academia Sueca, 8 de Outubro de 1998)
(in Wook.pt)

Comentário:

Li este livro há muitos anos; creio que há mais de quinze anos. Reli-o agora e encontrei nele um novo livro. Talvez porque nunca como agora este país tenha precisado de uma fuga para o mar.
A vontade de um povo transformada na vontade de uma península; nem a terra escapa à força de um povo. Portugal e Espanha não são, aqui, dois países. São um pedaço de terra insatisfeita com a sua condição de resto da Europa e um povo só, único e unido, na luta pela verdadeira independência.
Os conflitos sociais que daqui decorrem representam essa oposição tão enraizada no pensamento de Saramago: entre o povo e o poder instituído que não o representa e, pior ainda, se lhe opõe.
Este livro é o testemunho do iberismo que Saramago sempre defendeu mas é também um grito de revolta perante os caprichos do poder político de que ele próprio foi vítima, tanto em ditadura como em democracia.
A jangada cumpriu o seu destino: o mar, esse “mundo” que tantas vezes justificou o nosso ser português. E um dia parou; encontrou a sua identidade girando sobre si própria e, finalmente, estacionando, fixando-se como ilha. No entanto, Saramago deixa-nos em aberto a possibilidade de novas viagens. Talvez porque o nosso destino nunca se cumpra. Talvez porque o destino dos povos seja escrito página a página e não no determinismo com que tantas vezes encaramos o futuro.
Note-se que este livro foi escrito em 1986, ano em que Portugal aderiu à CEE, antecessora da atual União Europeia. Mas hoje, passados 23 anos, a discussão não terminou e muitos de nós continuamos a perguntar: que fazemos nós nesta Europa? É por isso que, por mais anos que passem, os livros de Saramago são sempre atuais.
Mas não se pense que este livro é uma obra sobre política. É um romance pautado pela sensibilidade humana com que Saramago sublinha todas as suas obras. De entre os vários personagens, sobressai a misteriosa Joana Carda que, com um risco feito no chão sente que determinou a separação da península. Quantos de nós não gostariam agora de fazer esse risco no chão? E pode ainda o povo fazer riscos no chão? Penso que sim e Saramago concordaria. No entanto, faltam as vontades. As vontades que talvez ainda estejam retidas num frasco de Blimunda.
 
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