segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Homem Duplicado - José Saramago



Sinopse
Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim».
Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pelos do corpo»...
Depois desta inesperada descoberta, de um homem exatamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem. A empolgante história dessa busca, as surpreendentes circunstâncias do encontro, o seu dramático desfecho, constituem o corpo deste novo romance de José Saramago.
O Homem Duplicado é sem dúvida um dos romances mais originais e mais fortes do autor de Memorial do Convento.

Comentário:
O Homem Duplicado é um dos livros mais surpreendentes de José Saramago. As primeiras páginas dificilmente deixam antever essa surpresa que o enredo nos reserva, tanto mais que, publicado em 2002, este romance parece, à primeira vista, limitar-se a seguir um certo trilho delineado por Saramago nos seus livros anteriores. Na verdade, este herói, Tertuliano Máximo Afonso, professor de história, parece seguir as pisadas de heróis anteriores, todos eles solitários de meia-idade: Cipriano Algor em A Caverna (2000), o Sr. José de Todos os Nomes (1997), ou o Revisor Raimundo, da História do Cerco de Lisboa (1989). No entanto, as semelhanças acabam aí. A imaginação na criação de um enredo fantástico faz deste livro um desafio à paciência do leitor, que não descansa enquanto não descobre como há de terminar uma história destas.
Tertuliano, professor de história solitário e dedicado, entretém os seus dias com a leitura de um livro sobre os assírios barbudos do século XII a.C. quando faz uma descoberta terrível: ao ver um filme com que tentava combater a solidão, descobre um ator secundário que é seu sósia. Mas tão sósia que nem a mãe os distinguiria. A vida de Tertuliano nunca mais será a mesma; a sua ambição será, de forma desesperada, encontrar o ator, o seu duplicado.
As peripécias em que se envolve tornam-se hilariantes e nem as mulheres dos duplicados escaparão às confusões destas duplas obras da criação.
No entanto, no meio deste enredo aparentemente apenas divertido, escondem-se temas bem profundos e muito queridos s Saramago, como a procura da identidade. Tertuliano descobre que apenas é a metade do seu ser. Tudo se passa como se o ator Daniel Santa-Clara (assim era o seu nome artístico) fosse outra metade que Tertuliano, afinal, descobre não possuir.
Solidão – imaginação –loucura. Onde estarão os limites? Tertuliano é um homem só. Nem o Senso Comum, com quem conversa regularmente, o acompanhará até ao fim na busca da sua identidade incerta; será esse o caminho para a loucura ou apenas para o reencontro com ele próprio?
Em suma, este é, em minha opinião, um livro fascinante. Um romance completo, onde não falta nenhum dos ingredientes com que são feitas as obras de génio: imaginação, diversão e uma visão profunda do ser humano.

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